domingo, 27 de outubro de 2019

Festa do Anhangá, no vale do Anhagabaú

Celebrações ao deus Anhangá, no Vale do Anhangabaú 
Eu curto a época de halloween, acho legal a cultura americana, mas nós temos na nossa própria cultura e nossas próprias bruxas para cultuar, pro exemplo o Saci…mas ai vocês vão me dizer, o halloween é uma festa antiga, é comemorado há mais de 2.500 anos e surgiu entre os celtas, que acreditavam que no último dia do verão (do hemisfério norte), 31 de outubro, os espíritos dos mortos saiam dos cemitérios para tomar os corpos dos vivos. O costume teria sido levado pelos imigrantes irlandeses para os EUA e incorporado ao All Hallows Even (véspera do Dia de Todos os Santos), dando origem ao Halloween.

Culturas antigas dos colonizados foram obliteradas pelos colonizadores, mas não foram totalmente esquecidas, é muito comum ver num provo que decide se reinventar e se re-amar, acordar suas crenças e até mesmo o seu idioma, como aconteceu com a língua hebraica, que após ter sido usada por mais de 1700 anos, essencialmente como veículo de expressão literária escrita e de orações,  foi revitalizada e integrada de forma viva e em uso com o restabelecimento do Estado judeu.

São Paulo é a maior e mais prospera capital da America do Sul nos dias de hoje, assim como São Paulo de Piratininga foi centro da Américas antigas, com trilhas que levavam a toda parte do continente, verdadeiras auto estradas para o caminhante que ao ira alem do Pico do Jaraguá, os protetores do vale, podiam chegar às lendárias terras do eldorado do Perú, como a mítica trilha do Peabirú.

Essa posição geografica privilegiada, a 800 metros de altitude, próxima a serra do mar tinha seu centro, chamado antes do descobrimento de Piratininga no delta de dois importantes rios, o Anhangabaú e o Tamanduateí, os nomes em tupi mostram um pouco de como a cidade era naquele tempo. O próprio nome da cidade, Piratininga que em Tupi significa "peixe seco", revela que os rios eram vivos e tinham muitos peixes, muitos deles morriam nos alagadiços do Carmo (onde é hoje o largo Dom Pedro) secavam ao sol e eram devorados pelas já famosas formigas do Brasil, que por sua vez atraia os belos tamanduás bandeira (tamanduá te y - rio do Tamanduá). O outro rio ficava num vale que era alimentado pelo córrego do Itororó, que descia da maravilhosa floresta do Ka'aguatá (hoje conhecida como Avenida Paulista), esse rio que descia por onde é hoje a Avenida 23 de Maio, desembocava no córrego do Anhangabaú, que também tinha uma linda vegetação protegida pelo Anhangá, o deus Tupi das Caças e da natureza.
Tupiniquins de Piratininga observam o lindo e poderosos Deus Anhangá

O Anhangá é comumente retratado como um veado branco, de tamanho atroz, com olhos vermelhos da cor de fogo. Ele é o protetor da natureza e persegue todos aqueles que caçam de forma indiscriminada, desrespeitam a natureza e pune quem caça filhotes ou matrizes que estão nutrindo suas crias e poluem suas águas.

O vale do rio Anhangabaú era sagrado, os habitantes de Piratininga faziam cultos e festas para deixar o deus mais feliz e menos vingativo. Hoje nós não só afogamos o rio do Anhangá, como também nos esquecemos do espírito mor de nossa cidade. Desprezarmos nossas tradições tupiniquins dessa forma é imperdoável!

De outubro em diante começa a temporada das chuvas em SP e o D’us Anhangá certamente virá vingar-se daqueles que esconderam seu riu com concreto e asfalto, alagando nossas ruas, derrubando nossas árvores nos carros e casas.

Se adotássemos a cultura #TUPIPOP , teríamos comemorações em celebração ao ANHANGÁ no dia do meio ambiente, talvez com uma parada no vale do Anhangabaú.

Xe Anhangá [gué/îu]!
Aîkugûabeté kó temi'u
Aîkugûabeté xe/oré remi'u

Faço aqui uma convocação a todos:

Que tal celebrarmos o dia do Anhangá no Halloween, (uma vez que os Tupiniquins daqui não tinham datas comemorativas)  talvez o Anhangá quisesse ser relembrado no dia 5 de junho, dia mundial do meio ambiente…

Não importa o dia, desde que saiamos no vale do Anhangabaú em procissão, para acordar e celebrar aquele deus que adormeceu debaixo do asfalto e da cultura dos outros.

sexta-feira, 7 de junho de 2019

Códigos de Guerra dos Tupis

 

O captor dava a ordem ao prisioneiro: -“Enhe'eng tembi'u”  



Graças aos livros de Lerry Thevet e Hans Stadens, sabemos como era a sociedade dos Tupis (Tupinambás, Tupiniquins, etc. ). Esses relatos começam com a aventura de Hans Staden, no ano 1553, que ao realizar uma caçada sozinho em Bertioga, foi capturado por indígenas que o trataram com muita violência - Staden logo percebeu que a intenção dos indígenas era a de devorá-lo em um sofisticado banquete, servido com o mais fino Cauim.

Apos passar por vários momentos de terror, Staden sobreviveu ao contato com os canibais, voltou a Europa, quando escreveu sobre essas verdadeiras desventuras quase inacreditáveis no ano de 1556, fazendo do Brasil e seu provo um dos lugares mais incríveis e assustadores do mundo de sua época.

A veracidade dos relatos de Staden são autenticados no ano seguinte no livro do francês André Thevet, de religião católica e posteriormente pelo calvinista Jean de Léry. Thevet teve sua experiência obtida ao fazer parte do grupo denominado França Antártica no Brasil, que após passar dez semanas vivendo na Baía da Guanabara, regressou à França por estar doente. No ano seguinte, publicou a obra intitulada ‘As singularidades da França Antártica (1557)’: uma fonte relevante por ser uma das primeiras obras a fazer menção ao Brasil em pleno descobrimento, no entanto, escrito com ênfase no fantástico ao transparecer a presença do imaginário medieval.

Já Jean de Léry que veio para o Brasil em 1558, juntamente com um grupo de quatorze pastores calvinistas, e cinco donzelas para habitar a França Antártica fez um realto bem mais acurado. No decorrer de sua estadia os conflitos ideológicos entre católicos e protestantes, fez que ele tivesse uma visão muito mais critica ao trabalho de Thevet, que após dezenove anos do seu retorno, publicou seu diário denominado ‘Viagem à terra do Brasil (1577)’, uma obra muito mais elaborada que tinha o declarado intuito de desmentir equívocos e mentiras contidas no livro de Thevet.

Essas três importantes obras ilustradas que renasceram na decada de 1920 Totem e tabu, de Freud, o manifesto Cannibale, de Francis Picábia, lançado em 1920, e o livro L’Anthropophagie rituelle des Tupinambás, de Alfred Métraux, que inspiraram os modernistas de 1922, Tarsila, Oswald e Mario de Andrade, fizeram que nós conhecêssemos a cultura, idioma e hábitos dos povos Tupis com rigor científico em estado de arte.

Banquetes que demandavam por refinada etiqueta, como as européias e éticas de guerra, com rituais semelhantes aos dos Samurais japoneses

O Brasil daquela época era ocupado por tribos irmãs e beligerantes, a guerra era uma atividade constante, Potiguares eram inimigos de Tabajaras, que por sua vez eram inimigos de Caetés, rivais dos Tupinambás, os quais, guerreavam constantemente contra os Tupiniquins. Essas guerras eram regidas por códigos atentamente observados e seguidos a risca por todos esses ‘primos’, falantes de variações do mesmo idioma, o Tupi Antigo.

O ato da guerra era sagrado e tinha como o momento culminante do embate, o apogeu ritualístico definitivo e verdadeira consagração da vitoria, a Antropofagia. Os ARAPURUS (comedores de gente) tinham rituais muito bem coreografados e a dinâmica do ritual canibalístico era muito elaborada, existem relatos de outros atos canibilísticos ao redor do mundo, mas foi aqui, nos litorais brasileiros que essa pratica teve a sua aplicação mais requintada.

1 – A guerra

Enquanto os portugueses estavam preocupados com a exploração dos recursos da nova colônia, os povos indígenas estavam totalmente dedicados aos atos de guerra intertribais. No ano de 1565 os portugueses resolveram tomar uma posição mais forte e uma batalha foi travada entre portugueses, aliados ao Tupiniquins contra os franceses, aliados dos Tupinambás. Poucos anos mais tarde a maior parte dos franceses foi expulsa da região da Gauanbara, que tinha Villegagnon, um cavaleiro católico de Malta como líder, junto aos Tupinambás da resistência. Essa derrota só foi possível com a ajuda dos Tamoios, sob a liderança de Aimberê, dando origem assim ao Rio de Janeiro.

O executor perguntava: -“Ere-îuká-pe oré anama, oré iru abé?” (mataste nossos companheiros e nossos parentes, o prisioneiro então relatava seus feitos heróicos: - “Pá, Xe r-atã, a-iuká, opabe a-‘u. Xe anama xe r-eõ-nama resé xe r-epyk-y-ne. Xe anama e’i-katu pe îukabo” (Sim, eu sou forte, matei-os e comi-os todos, minha família, por minha morte vingar-me-á, minha família irá matar vos).Prisioneiro dos Tupinambas amarrado pela cintura com a MUÇURANA em ritual de sacrifício, O executor, vestindo um lindo manto de GUARÁ, empunha a IBIRAPEMA
Em meio a essa guerra toda, guerreiros de tribos inimigas eram capturados e ai então os Abá-Porus faziam a festa

2-O Prisioneiro de Guerra

No exato momento em que o inimigo era capturado, o guerreiro responsável pela captura virava seu dono, e passava a ter responsabilidade direta sobre seu cativo até o final de todo o processo, que culminaria com com sua canibalização. Os prisioneiros eram amarrados pelos pés e mãos, o que impossibilitava sua caminhada, para se locomoverem, eles tinham que dar ‘pulinhos’, situação que se ridicularizava bastante o capturado.

Aos pulos os prisioneiros eram conduzidos até a aldeia dos vencedores, ao passar pela entrada principal, eram recebidos com animosidade e ainda mais humilhação, os residentes jogavam restos de comida e pedriscos e se dava o seguinte dialogo:

O captor dava a ordem ao prisioneiro: -“Enhe'eng tembi'u” (Fale, comida); O prisioneiro então respondia: “Aîur-ne pe rembi'urama” (Estou chegando eu, sua comida);
As pessoas da tribo, jogando pedriscos e restos de comida no prisioneiro completavam: “Opererek îandé rembi'u oîkóbo” (Aí vem chegando nossa comida).

Nos próximos dias, o prisioneiro recebia o tratamento equivalente ao de um primo distante, era hospedado na oca do captor, era bem alimentado, a zombaria cessava 'em parte' e o anfitrião oferecia, alimento, rede e até mesmo sua filha ou sua esposa para que este se satisfizesse sexualmente. Nos primeiros dias, ele recebia também uma longa corda com nós para ser usada ao redor do corpo e pescoço, chamada de MUÇURANA. A Muçurana tinha uma quantidade de nós que representava o numero de ciclos lunares até sua execução. O prisioneiro jamais tentava fugir, pois isso seria a maior vergonha para ele e sua tribo. Na bizarra hipótese da fuga do prisioneiro, as pessoas de sua própria tribo não o aceitariam de volta e o conduziam vergonhosamente a aldeia dos captores para seu destino que já estava determinado pelo condigo de conduta da tradição oral mais antigo que se conhecia.

Os Tupis, tal qual os samurais prezavam a morte digna, o tumulo mais honroso para um guerreiro era o estomago de seu inimigo - Ter suas entranhas devoradas por vermes e insetos era repugnante e desprezível.

3- O Banquete

No dia anterior ao banquete, todos bebiam o Cauim, bebida fermentada de mandioca produzida exclusivamente pelas mulheres pelo processo de mastigação e cusparada (a amilase salivar transformava amido em açúcar, que por sua vez era fermentado por leveduras exógenas, criando assim uma bebida de graduação alcoólica não superior a 8,5%), e tinha inicio uma grande festa.
Capa de penas de guará e de papagaio. Pertencia à tribo de índios tupinambá. Após a chegada do europeu em 1500, grande parte destas preciosidades foram saqueadas. O destacado Manto Tupinambá, que já foi confundido com o manto de um imperador azteca e foi levado daqui pelo governador holandês de Pernambuco, no século 17. Hoje pertence ao Museu Nacional de Arte da Dinamarca.


Na manhã seguinte, o prisioneiro tomava um banho e depois era ornado com penas, casacas de ovos, e outros adereços, eram também feitas pinturas vermelhas de urucum e pretas de jenipapo. Uma pantomima sempre acontecia nesses rituais - permitia-se que o prisioneiro fugisse até a entrada da aldeia quando era recapturado, numa encenação ritualística, e voltava amarrado com a Muçurana pela cintura, trazido por dois guerreiros, um de cada lado da corda e trazido para frente do executor enquanto a tribo toda gritava e se alvoroçava, aumentando assim o clima da festividade ao seu êxtase.

O Executor que também havia se banhado e submetido a uma pajelança com ervas e unguentos, após a longa cauinagem da madrugada, trajava-se de forma ritualística, com plumas pinturas e um maravilhoso MANTO GUARÁ vermelho feito com pele de lobo-guará, ornado com plumas de arara e tucano. Um dos momentos mais acalorados da festa era quando o executor se colocava na frente do prisioneiro, o absoluto silencio se fazia e acontecia outro dialogo:

O executor perguntava: -“Ere-îuká-pe oré anama, oré iru abé?” (mataste nossos companheiros e nossos parentes?)
O prisioneiro então relatava seus feitos heróicos: - “Pá, Xe r-atã, a-iuká, opabe a-‘u. Xe anama xe r-eõ-nama resé xe r-epyk-y-ne. Xe anama e’i-katu pe îukabo” (Sim, eu sou forte, matei-os e comi-os todos, minha família, por minha morte vingar-me-á, minha família irá matar vos).

Após o dialogo, o executor empunhava uma pesada arma, assemelhada a uma enorme maça, com um peso na ponta, ornada com plumas, que previamente fora preparada com orações e libações, chamada ‘IBIRAPEMA’, a manejava com destreza em movimentos marciais coreografados, encaminhava-se para traz do prisioneiro e acertava a base do crânio com muita força.

A morte era rápida, o crânio era despedaçado em sua base.

As mulheres mais velhas rapidamente colocavam um embolo em seu anus para evitar que os fluidos saíssem, recolhiam seus miolos e demais fragmentos espalhados pelo chão e tentavam recolher a maior parte possível de sangue. O corpo permanecia de pé, amparado pelas Muçuranas, fazendo com que seu sangue não fosse espalhado pelo chão, havia uma propósito muito nobre para todo esse sangue.
Os ABAPURUS banqueteavam por 4 horas, o ritual canibal acabava e os habitantes da tribo se recolhiam nos seus aposentos para dormirem

O sangue colocado em vasos de barro cozido e era bebido ainda quente por todos, as mulheres passavam em seus seios e davam o peito aos bebês, seu corpo era colocado com muito respeito dentro de um caldeirão já com água fervente, para facilitar a retirada da pele, ai então o corpo era desmembrado, cortado pelo dorso e levado para a defumação (moqueágem). Após alguns minutos o corpo era virado, abria-se o ventre e os miúdos eram misturados a farinha e o mingau era dado para as crianças, só os grandes guerreiros podiam comer um mingau preparado com a pele ao redor do crânio, e os órgãos sexuais eram devorados pelas mulheres. A língua e os miolos eram comidos por pré-adolescentes de 12 a 16 anos de idade.

Logo apos a execução, o executor era arranhado pelo líder tribal com dente de onça, de forma que a escarificação já cicatrizada servia-lhe como honraria – Quanto mais escarificado, melhor guerreiro era. Todo esse ritual era acompanhado de musica de flauta feita com os ossos dos prisioneiros abatidos anteriormente.

Ao final de 4 horas, o ritual acabava e os habitantes da tribo se recolhiam aos aposentos para dormir, a final de contas, ficaram acordados a noite toda para o grande evento.




sábado, 1 de junho de 2019

O Primeiro Jantar harmonizado com Cauim da nossa história

Hildo Sena, Kalymaracaya e Luiz Pagano
Nessa semana aconteceu algo inédito na história do Brasil, foi oferecido o primeiro jantar harmonizado com Cauim, fora de uma tribo indígena, para o grande publico consumidor brasileiro. Luiz Pagano e Hildo Sena serviram o ainda experimental CAUIM TIAKAU para ser degustado e harmonizado com releituras de pratos indígenas.

Após uma breve palestra sobre o cauim e seu papel de bebida de excelência autenticamente brasileira, exclusivamente servida pelas mais de 305 etnias indígenas em todo território brasileiro, o Cauim foi oferecido e o publico pode fazer uma degustação técnica e em seguida, foi servida para acompanhar os pratos.
Garrafas e taças para serviço do CAUIM TIAKAU, junto com o bastão de guaraná e ralador feito de língua de Pirarucu pelos Saterés Mawés 

"Nossa proposta é fazer com que o Cauim ultrapasse as fronteiras das aldeias indígenas e sirva como bebida de integração, reduzindo cada vez mais a grande distancia cultural que nos separa dos irmãos nativos, promovendo o respeito, amizade e integração" disse Luiz Pagano.

O Magnifico jantar, executado com excelência pelos alunos do SENAC Campos do Jordão, no restaurante Toriba de Campos do Jordão, em meio a Serra da Mantiqueira, sob a regência do professor Vitor Pompeu, contou com a Chef Indígena Kalymaracaya da etnia Terena de Aquidauana e o Chef Caiçara Fábio Eustáquio de Ubatuba, que criaram os pratos do menu com 5 tempos: o couvert, entrada, prato principal 1 e prato principal 2 de sobremesa.

Preparado para servir 50 pessoas e com o retorno financeiro totalmente revertido à APAE, o menu foi:

COUVER
Pão de inhame com manteiga de nibs de cacau e manteiga de castanha de caju.
Sardinha com salada pancs e sagu suflado

ENTRADA
Sardinha com salada pancs e sagu suflado

PRATOS PRINCIPAIS
Siri Pupunha

Siri Pupunha

Carne de Javali com molho de tucupi preto e branco - Terra e Rio

Terra e Rio (com tucupi preto e branco)

SOBREMESA
Banana empanada frita com sorvete de coco e doce de caju

Antecedentes Históricos

Não se tem conhecimento de que na historia brasileira tenha havido um jantar nesses moldes, o Cauim, fermentado de mandioca cuja o processo de produção original a transformação promove a quebra amidos em açúcares por meio da tradicional mastigação e cusparada, sempre foi servido nas aldeias indígenas. Vale ressaltar aqui, que o CAUIM TIAKAU servido no jantar dessa semana, foi concebido por um refinado processo industrial, isento de qualquer contato com saliva humana, e a quebra do amido se deu por meio de enzimas comerciais e koji, leveduras especiais utilizadas no Japão para a produção do Saquê.
Os bandeirantes tomavam o Cauim em suas incursões e quando pousavam em tribos indígenas, mas consideravam o Cauim e a Tiquira 'bebidas intragáveis'. A direita Bartolomeu Bueno Da Silva, 'O Moço"

Na historia do Brasil João Ramalho, conhecido como 'O Pai dos Paulistas' talvez tenha sido o primeiro europeu a tomar o Cauim em família, nos anos de 1530~1545, ao lado de seu sogro, o cacique Tibiriçá,  sua esposa Bartira, junto a seus familiares. Assim como ele, outros europeus que resolveram casar-se e adotar o estilo de vida das tribos, também tenham consumido o cauim em suas refeições.

Depois disso, quando os primeiros colonizadores vieram para o Brasil, a Bagaceira Portuguesa, Vinho Verde e o Vinho do Porto, que junto a alimentação era trazida da Corte, mas isso era um empecilho a grande necessidade que tinham de consumir tradicionalmente bebidas alcoólicas, pois a importação as deixava cada vez mais caras e inacessíveis, surgindo assim, a necessidade de produzir uma bebida local -  a primeira ideia foi a de consumirem o Cauim, produzido pelos escravos índios.
Jantar para 50PAX de pratos com releitura indígena e caiçara acompanhado de Cauim no restaurante Toriba de Campos do Jordão, em meio a Serra da Mantiqueira. 

O Cauim tinha paladar e textura muito diferentes do que aquilo que os Portugueses estavam habituados a beber, muito difícil de ser incorporada a seu dia-a-dia. Eles tentaram destilar o Cauim para purificar os sabores, nos mesmos moldes que os espanhóis já vinham fazendo com o Vinho de Agave, chamado de Pulque, para se obter a Tequila, porem não tiveram grandes sucesso*, o Cauim assim como a Tiquira eram consideradas 'bebidas intragáveis'.

Na busca por uma bebida limpa, em substituição ao Cauim,  os Senhores de Engenho passam a destilar o caldo fermentado de Cana de Açucar, denominado Cagaça, nascendo assim a Cachaça.

Com o aparecimento da Cachaça e sua grande aderência na sociedade brasileira, o Cauim, assim como era no inicio, passou a ser servido exclusivamente nas tribos indígenas.
Luiz Pagano e Hildo Sena conduziram a degustação do CAUIM TIAKAU no primeiro jantar harmonizado de Cauim

Redescobrindo Nossas Origens 

O jantar do Hotel Toriba, marca o inicio de uma nova fase da nossa história, da mesma forma que as Pulquerias, quase totalmente falidas nos anos 80 passaram a serem redescobertas pelos Mexicanos desde 2016, Luiz Pagano e Hildo Sena esperam que o Cauim surja como uma nova categoria de bebidas, conscientes de que há um longo caminho pela frente.
Chef Vitor Pompeu e os alunos de Gastronomia do SENAC de Campos do Jordão ao lado da Chef Indígena Kalymaracaya da etnia Terena de Aquidauana e do Chef Caiçara Fábio Eustáquio de Ubatuba - noite memorável

*A Tiquira, bebdia destilada do Cauim ainda hoje é comercializada no Maranhão e Piauí, mas sem grande apelo comercial.



quinta-feira, 21 de março de 2019

TIAKAU , o primeiro cauim feito 100% de mandioca no mercado de bebidas alcoólicas - Sonho que se realiza

Garrafa do CAUIM TIAKAU de 330ml.

A última vez que um brasileiro, não pertencente a uma tribo indígena tomou o CAUIM, como bebida cotidiana, provavelmente foi na época dos bandeirantes, o velho diabo 'Anhanguera' no ano de 1682, ou o velho Raposo Tavares em meados de 1650… Nunca saberemos. Desde então, uma ou outra dose é servida a turistas ou visitantes convidados de alguma tribo indígena. mas essa historia mudou no dia 29 de novembro de 2018, quando o Café da Casa, um charmoso café localizado na Rua José Maria Lisboa, 838, no bairro dos Jardins em São Paulo, passou a servir a garrafa do CAUIM TIAKAU, o primeiro CAUIM produzido em processo semi-industrializado a chegar no mercado.

Assista o video CAUIM DAS TRIBOS PARA TODOS OS BRASILEIROS

Foi um evento simples, intimista, sem nenhuma divulgação, mas de enorme importância cultural - Imagine que pudéssemos relatar com precisão o dia e as circunstancias em que o vinho foi servido pela primeira vez numa igreja, simbolizando o sangue de cristo, ou descrevermos em detalhes a data e horário da primeira purificação xintoísta feita com saquê…

Para chegar até esse dia, um reduzido grupo de pessoas se esforçou "mais do que prometia a força humana", comprometendo orçamentos familiares, fazendo experiências em seus quintais e manifestando amor por nossa gente, nossa pátria e historia - Quem relata os eventos é Luiz Pagano.

O CAUIM é uma bebida alcoólica produzida a partir da mandioca fermentada, por praticamente todas as mais de 305 etnias brasileiras, nossos ancestrais indígenas. Nossa proposta foi a de recriar a bebida, em reedição semi-industrial, respeitando a tradição ancestral, em processo que, por assim dizer, foi baseado no de produção do SAKÊ.

CAUIM TIAKAU servido no Café da Casa do Museu do Xingu e escritórios do Ponto Solidário
Em resumo, trouxemos a bebida ritualística tomada exclusivamente por indivíduos de tribos indígenas para ser consumida por todos nós brasileiros, como forma de reaproximação de nossas raízes mais essenciais, certamente respeitando nossa gente e a espiritualidade de nossa cultura fundamental - A cultura Tupi Antiga.

Como resultado dos esforços de um seleto grupo de profissionais do mercado de bebidas alcoólicas, líderes tribais e profissionais ligados aos estudos de nossas etnias, eu incluso, surge o CAUIM, a bebida alcoólica ainda mais brasileira do que a própria cachaça.
O controle das temperaturas é fundamental para se produzir um bom CAUIM

O CAUIM, bebida ritualística xamânica surge agora resignificanda, apta a ser consumida comercialmente - Trata-se de uma inédita categoria de bebidas, no seu mais absoluto começo.

É importante que se diga que ainda não existe a categoria de bebidas CAUIM - 100% FERMENTADO DE MANDIOCA legalmente, o produto que aos pouco botamos nos bares e prateleiras ainda entra no mercado enquadrado legalmente como BEBIDA MISTA por falta de leis específicas, em produção bem limitada, numa operação experimental, aguardando por investidores inovadores e outras oportunidades de crescimento.  O esforço para regulamentar a bebida está em andamento, demos a entrada em dois dos três métodos de produção do CAUIM no DIRPA - Instituto Nacional de Propriedade Industrial no dia 23 de junho de 2017, so quando for criada a categoria, poderemos registrar a marca e logo. Como bem sabemos, o processo para incubação de empresas e invenções de produtos no Brasil é burocrático, lento e desgastante - infelizmente :(.

Como disse anteriormente, existem tres Métodos para se produzir o CAUIM:

1-MÉTODO ÉTNICO
Processo ritualístico NÃO PODE SER USADO NA INDÚSTRIA;

2-MÉTODO ‘PAGANO’ - JAPONÊS
Processo no qual a dulcificação do amido é promovida pela ação do KOJI;

3-MÉTODO ‘SENA’ - ENZIMÁTICO
Processo no qual a dulcificação do amido é promovida pela ação direta de enzimas.
Professor Hido Sena e Luiz Pagano - parceria para resgatar a bebida mais emblemática e ancestral da cultura brasileira,
o CAUIM - O MÉTODO criado por Sena e seus alunos é sem duvida o melhor resultado já obtido.

Os povos indígenas no Brasil usavam enzimas presentes na saliva das Kunhã Makú (belas virgens das tribos), para quebrar amido da mandioca em açúcar, e posteriormente poder fermentá-lo. No Japão antigo fazia-se a mesma coisa com o arroz pelas chamadas virgens bijinshu (美人酒 - as belas mulheres do saquê), esse é o chamado Método Étnico.

Para poder produzir o saquê de forma mais segura, a aproximadamente 1000 anos atrás, adotou-se o KOJI ( 麹 菌 Koji-kin) nome dado ao microorganismo Aspergillus oryzae para promover a promover essa quebra de amido, esse processo também é usado para se produzir o CAUIM. Vale lembrar que nós, entusiastas do Tupi Antigo (falo um pouco mais sobre isso um pouco mais abaixo) nos sentimos compelidos a descrever os passos do processo de produção de CAUIM em Tupi Antigo, para reforçar o elo cultural histórico de nossos antepassados, igualando a importância do CAUIM à do saquê em rituais xintoístas e a do vinho eucarístico, fundamental no cristianismo, o CAUIM é alma ancestral religiosa de nossas etnias e culturas ancestrais.
Colocação de KOJI sobre as pérolas de Mandioca

No segundo Metodo, criado por mim (Luiz Pagano), a princípio faz-se o Mbeîu apó, ou o preparo do beiju,  (ou Mbeîu moakyma), sendo o beiju 100% feito de mandioca perolizada é embebida em água quente.

A seguir, segue o Sabẽ nonga (Colocação dos esporos) processo no qual o KOJI é colocado para atuar no beiju quebrando açucares, lipídios e protídeos para que a fermentação possa ocorrer. 

quando o 'Sabẽ mbeîu moe’ẽ' ( o esporo torna o beiju sápido) após os esporos crescem por 48 horas, teremos a matéria prima para fazer a fermentação alcoólica, chamada de Haguino.

O  Hauguino acontece de 30~35 dias em temperaturas baixas, (5ºC ~ 14ºC) num processo de Fermentação Múltipla Paralela, ao mesmo tempo que o açúcar se converte em álcool por meio de leveduras, o mosto residual continua a se converter em mais açucares, também havendo a quebra de lipídios e protídeos.
Instalações de fermentação usada para produzir as brassagens experimentais de CAUIM

Por fim fazemos o Mbeîu mogûaba (coar/peneirar o beiju) aqui nós separamos o CAUIM fresco do bolo de mandioca num ecológico, colocado em sacos de algodão, de 8 litros e e submetê-lo a uma leve prensa, tal qual se faz com o saquê.

Para o terceiro Método, 'Sena' enzimático, desenvolvido por Hildo Sena e seus alunos na FATEC DE ARAÇATUBA, o processo é bem mais simples, rápido e é o de mais baixo custo para se produzir. Nele o CAUIM é produzido usando-se apenas enzimas especiais em substituição ao KOJI, o que permite maior controle qualitativo de todo o processo, garantindo um perfeito CAUIM.
Para resgatar a cultura ancestral brasileira recorri ao ímpeto de preservação de tradições e tecnologias japonesas, me associei a uma Sommelière de Saquê, Hikaru Sakunaga (作永ひかる), contei com um grupo de estudantes de Tupi Antigo, alem de profissionais de fermentação ingleses e brasileiros. Acima um exemplo desse 'melting pot', um gráfico de progresso do KOJI, que ilustra muito bem a mistura de todas essas culturas -
Todos nossos materiais estão escritos em Japonês, romaji, Tupi-antigo, português e inglês :)

Com uma hidratação mais eficiente no inicio do processo, o método Sena dispensa a filtração final.

NOTAS DE DEGUSTAÇÃO DO CAUIM

Muitos nesse ponto se perguntam: 'Muito bem, qual é o gosto do CAUIM?' - ai vai…


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ASPECTO VISUAL
Tons amarelo palha, com brilhos esverdeados vivos;

NO NARIZ
Aromas de mandioca fresca se mesclam a lances de abacaxi, pêra verde e uva Chardonnay;

NA BOCA
Notas de banana verde e amêndoas, evolui para raízes frescas e terrosas, corpo leve e equilibrado com baixa alcolicidade;

HARMONIZA 
Com peixes da Amazônia grelhados, filhote na manteiga de garrafa, torteletes de palmito.  
Quando você for ao Café da Casa, peça uma dose de CAUIM TIAKAU com Pastelina de Palmito -
A harmonização é perfeita
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A MARCA TIAKAU

A marca TIAKAU, surgiu num bate papo de um grupo de 65 estudantes de Tupi Antigo, discípulos do professor Eduardo Navarro. Aconteceu num dia quando eu estava muito feliz por finalmente termos chegado ao CAUIM final, quando lancei o desafio de bolarem um bom nome para a marca, de preferencia em Tupi Antigo - Todos calaram-se e nenhum nome surgiu. 

Em meio toda aquela duvida alguém se levantou e disse "Ere'u-potarype amõ mani? T'ÎAKA'U !!!" que significa "Querem beber um pouco de mani (gíria tupi para CAUIM) - e no final exclamou "T'ÎAKA'U !!!" - que significa literalmente "vamos CAUINAR',  'vamos à CAUINAGEM','vamos tomar o CAIUIM', dito no espirito de quem diz, "nós viemos aqui para beber, ou para conversar?".  Pronto, naquele momento o nome já havia sido dado,  T'ÎAKA'U !!!

Alguns críticos sempre me alertam, "você não tem medo de fazer tanto alarde de um produto que ainda não tem registro e nem patente", minha resposta é "Não, pelo contrario, o alarde é necessário!

Quanto mais gente conhecer esse projeto, melhor é!  Se o CAUIM não cair na graça do grande publico, provavelmente a iniciativa de se produzir o CAUIM semi-industrial se perca para sempre - se eu morrer hoje, talvez o CAUIM morra comigo e D'us lá sabe quando poderá ser renascido novamente".

É evidente que pretendemos patentear o produto e comercializarmos, para recompensar financeiramente nosso grupo desenvolvedor, para que no mínimo possamos recuperamos todo o investimento de trabalho, viagens que inclui varias internacionais, incluindo as caras viagens ao Japão, bem como todo nosso esforço dedicado, mas a recompensa final acaba sendo da cultura brasileira, com o legado de mais uma bebida nacional que lindamente representa nossa essência.
O encontro das duas mentes mais inventivas do mundo no começo do século passado .

Lembro de um artigo de Herbert Wallace escrito em 1902, relatando o encontro de Santos=Dumont e Thomas Edison, no qual eles conversavam sobre seus inventos, o consenso foi que Dumont fazia seus inventos pensando no bem mundial, com uma certa leitura “Wiki”,  inspirando os próximos inventores a usarem suas idéias livres de patentes (a humanidade precisou de quase 100 anos para entender o conceito de inventos sem patente e softwares abertos como fonte de prosperidade) enquanto que Thomas Edison tinha grande interesse comercial em seus inventos e não dedicava seu tempo a nada que não pudesse ser patenteado com propósito de imediato ou futuro resultado financeiro.  
Luiz Pagano brindando com amigo - T'reikokatu!!! (saúde em Tupi Antigo)

Eu e o grupo de entusiastas não inventamos o CAUIM, nós somente o trouxemos de volta ao cenário cultural, nosso interesse é fazer com que num futuro próximo, inspiremos a surgirem CAUIMs de diversas culturas, que possa existir nas prateleiras das lojas de bebidas lindas garrafas do Masato dos Ashaninkas, ou Tarubá em lata, produzido por etnias de Santarem-PA, ou, até quem sabe, o caro Caxiri dos Waiãpis da Amazonia, todas elas variações do mesmo fermentado de mandioca, vendidas ao grande publico e até mesmo sendo exportadas, com métodos industriais modernos, preservando sua essência religiosa ancestral, sem perder o aspecto tradicional, e ainda gerando recursos para tribos, muitas delas em vias de extinção de forma sustentável e consciente.

Temos que aprender e a respeitar nossas tradições e concilia-las à modernidade, tal como fez o Imperador Meiji e suas medidas politico-económicas, proporcionando a cultura milenar japonesa uma elegante forma de chegar prosperamente aos séculos vindouros. Nós também podemos começar mudar a nossa cultura, talvez atreva da bebida alcoólica, podemos ter diversas marcas e tipos de CAUIM e suas variantes, assim como já acontece com as mais de 50.000 marcas de Saquê no Japão.
Luiz Pagano recebe a bênção do 'Morubixaba'(Cacique) Paulo da etnia Wassu Cocal do Alagoas - Nós temos o papel de promover uma ponte entre os dois mundos, o rico ancestral indígena e o cosmopolita urbano brasileiro. 

Nesse sentido um dos trabalhos mais importantes do projeto CAUIM TIAKAU é o do grupo de estudos de lingua e tradição ancestral brasileiros, com a ajuda do professor Farias Betio, Emerson Costa e outros estudantes do Tupi Antigo, Nheengatu e línguas gerais diversas, discípulos do professor Eduardo Navarro da USP, com mais de 80 eruditos e entusiastas que tentam resgatar o Tupi Antigo, e traze-lo como idioma chave para as mais de 305 etnias ancestrais que habitam o território brasileiro.

Assim sendo, o primeiro passo dado assim que tivemos a bebida pronta, foi levar para a aprovação e benção da espiritualidade ancestral indígena. É sabido que muitos indígenas cobram para abençoar projetos, sejam eles quais forem, é evidente que nós não queríamos ter essa "prestação de serviço remunerada", a liderança espiritual indígena teria que aprovar nosso projeto pelo que ele é, não pelo mero pagamento.
Festa do CAUIM TIAKAU - a esquerda abaixo, professor farias com Maximo Wassú, acima professor Farias com Iradzu da etnia Kariri Xocó, à direita acima 'APPUH', recinto onde o cacique performou a benção ao CAUIM TIAKAU e ao fundo, Morubixaba Paulo da etnia Wassu Cocal segurando uma garrafa do CAUIM TIAKAU.

Luiz Pagano relata sua experiência com o mundo ancestral - "No começo parecia impossível ter esse passo fundamental, a benção do plano espiritual - as tribos são distantes e inacessíveis e sua cultura muito fechada, restrita ao povo com sangue indígena. Certa vez, numa de minhas viagens pelo Brasil, encontrei um integrante da tribo Gajajara e comentei com ele sobre o projeto do CAUIM e minhas dificuldades, ele me disse que as coisas tem hora certa para acontecer, o trabalho se desenvolve primeiro no plano espiritual e o que aparece na terra é somente o reflexo do plano superior, tal como o broto esconde suas raízes na terra, disse ainda que as manchas de vitiligo que tenho nos antebraços e mãos (condição da qual sou portador) são maculas da mandioca que já venho trabalhando no mundo espiritual junto a Mani, deusa albina que da mãe mandioca e que não forçasse nenhum encontro, pois tudo aconteceria de forma natural e fluida em seu tempo certo, é de fato foi assim que ocorreu.

Certa vez visitando um Shopping Center em Osasco a convite do professor Farias, que queria encontrar seus amigos indígenas, passamos muito bons momentos ao lado de Máximo Wassu, Morubixaba Paulo da etnia Wassu Cocal, Iradzu da etnia Kariri Xocó, Pedro Pankararé, e eu levei o cauim para que eles experimentasse. O Cacique Paulo da etnia Wassu Cocal do Alagoas logo se prontificou a abençoar o CAUIM TIAKAU, dizendo que esse projeto é muito importante por se tratar da ponte fundamental entre os dois mundos (povos indígenas ancestrais e o povo brasileiro em geral), a bebida alcoólica mescla cultura e espiritualidade, unido mundo material com mundo espiritual. O cacique também está empenhado nessa obra de unir as culturas, ele luta por constituir uma reserva multiétnica em Guarulhos, e está se dedicando à igreja Anglicana, entidade da qual pretende ser o primeiro pastor de ascendência indígena, sem deixar que a cultura ancestral da floresta seja subjugada aos padrões religiosos anglicanos, como aconteceu no nosso passado histórico, no qual jesuítas obliteraram suas próprias crenças para forçadamente adotarem a liturgia jesuíta.

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Como disse no começo, nossa operação de produção e comercialização do cauim ainda é embrionária, não se pode registrar uma marca de um produto sem categoria, e dessa forma, tudo que nos impede de termos o produto em pleno mercado, são as dificuldades burocráticas e limitações de investimento, pois no que depender de qualidade, vontade e sabor, o produto é incrivelmente viável e prazeiroso.

quarta-feira, 28 de novembro de 2018

Os Caraíbas e a religião Tupi

Caraíba praticando ritual de cura numa mulher Tupinambá por meio de impostação de mãos

Para a igreja católica da época do descobrimento do Brasil, a descoberta de seres humanos na America representava um sério problema, não se admitia ninguém vivendo fora de suas graças, por esse motivo os padres Vieira e Manoel da Nobrega se apropriaram indevidamente do mito de Sumé para inserir a igreja católica na vida dos índios, segundo eles, foi o apostolo São Tome quem levou a doutrina Cristã aos índios da antiguidade.

Fato é que mesmo acreditando que eles não tivessem um conjunto de crenças, a grande nação Tupi-Guarani que ocupava vasta extensão do território Brasileiro, Paraguai, Argentina e Bolívia acreditava em homens santos, capazes de promoverem a cura e guiarem as almas dos bons ao Paraíso na Terra.

O professor Eduardo de Almeida Navarro assim descreve a religião Tupi-Guarani:

“A descoberta da América conduziria, inexoravelmente, à necessidade de um enquadramento das novas realidades geográficas, culturais e sociais recém conhecidas nos esquemas europeus de compreensão do homem e do mundo e isso para impedir a relativização da Revelação bíblica e salvaguardar a idéia da unidade do gênero humano aceita desde a Antiguidade. Desse modo, a religião e os mitos indígenas foram interpretados segundo os conceitos vigentes no universo mental europeu do século XVI. O mito de Sumé foi assimilado à pregação do apostolo São Tomé na América, o mito do dilúvio foi compreendido como reminiscência da narrativa do Gênesis.  A verdadeira religião tupi-guarani, que tem como essência a crença na Terra sem Mal, passou despercebida, então. Religião sem Teologia, concebia o paraíso como a superação da morte e da ordem social e política. Paraíso de homens-deuses, que teria uma realização histórica e uma localização geográfica.

A busca da Terra sem Mal levou a grandes migrações de índios pela América do Sul e a idéia da imortalidade, nela contida, foi assimilada ao conceito de "Vida Eterna" do Cristianismo, o que favoreceu, em grande medida, o bom sucesso do Estado Jesuítico do Paraguai”. O Sumé é o responsável pela civilização das tribos tupi, descrito como “grande feiticeiro, branco, barbado, que veio pelo mar”, Sumé e mencionado como Mairatá, entre os Tapi do Maranhão e Maré - o civilizador mítico dos aimoré, que era descrito como um homem branco e de cabelos vermelhos. Era branco e loiro também entre os Izi do extemo norte, enquanto os Apinagés se referem em seus mitos a um grupo chamado “kupe-ki-kambleg”, que significa literalmente “tribo estrangeira de cabelos vermelhos”.

Contavam os índios que o Sumé tinha ensinado a seus antepassados o plantio e a domesticação da mandioca e a moquear o peixe, num tempo em que todos se alimentavam apenas de elementos rústicos, pobres em nutrientes e gosto. Mas a ação do Sumé não se limitou ao ensino de técnicas agrícolas e de cozinha, a ele foram atribuídas também a abertura de caminhos e a introdução de novos princípios religiosos.

No sul, conta-se que Sumé foi para o Paraguai (onde tinha ensinado o uso da erva-mate), seguindo dali para o Peru. Durante esta caminhada teria aberto a estrada que ficou conhecida entre nossos indígenas como Peabiru ou Piabuyu, ou seja, o Caminho da Montanha do Sol.

Caraíbas – Os ministros de Sumé

Caraíbas ("Kara ' ib" (sábio, inteligente – karaibas) eram homens santos, nômades, que transitavam em meio a todo território de língua Tupi, tinham salvo-conduto entre todas tribos, mesmo aquelas em guerra e conheciam bem todas as etnias indígenas e suas línguas.  A figura do Caraíba pode ser muito bem entendida através do relato de Jean de Léry, que diz ter presenciado um ritual com cânticos e danças, no qual os caraíbas falavam de mortos e dos ancestrais, e da certeza de encontrá-los “por detrás das montanhas” para dançar e festejar com ele; ralavam também de um dilúvio, muito similar ao evento bíblico e que o próximo cataclismo global estaria em vias de acontecer.

O Padre Manoel da Nobrega também teve contatos com caraíbas e relata:

“Chegando o feiticeiro (isto é o caraíba), com muita festa, ... entra numa casa escura e põe sua própria voz como a de um menino, ... lhes diz que não cuidem de trabalhar, nem vão a roça, que o mantimento por si só crescerá e que nunca lhes faltará de comer e que a caça por si só virá à casa e que a flechas irão ao mato caçar para seu senhor e hão de matar muitos dos seus contrários e cativarão muitos para os seus comeres. E promete-lhes longa vida e que as velhas hão de se tornar moças e que dêem as filhas a quem quiserem e outras coisas semelhantes lhes diz e promete”.

Yby Marãne’yma - O Paraíso na Terra

Diferentemente dos paraíso da tradição Judaico Cristã, não é necessário morrer para chegar no paraíso dos Tupis-Guaranis. O Yby Marãne’yma , lugar para onde vão os espíritos mais virtuosos, tem forma física na terra, com acesso aos vivos.

A idéia de paraíso terrestre das etnias do novo mundo, apresenta uma versão mais pragmática do sentido religioso de paraíso, comparada às religiões da Europa. Eles acreditavam que o paraíso está aqui mesmo e para alcançá-lo nos só precisávamos superar nossas próprias angaipabas (maldades / pecados).

Uma análise profunda nos textos sobre o Peabiru (na língua tupi, "pe" – caminho; "abiru" - gramado amassado) descrito pela primeira vez pelo padre jesuíta Pedro Lozano em sua obra "História da Conquista do Paraguai, Rio da Prata e Tucumán de 1873~5", revela que este não era um caminho físico, o Peabiru é o mapa de reforma das atitudes individuais para se viver num paraíso terrestre, baseada em vários objetivos de mudanças de hábitos.

1- Cura das doenças – Os caraíbas eram grandes apreciadores e conhecedores da mata, e acreditavam que para todos os males existiam os “anti-males”, as doenças não passavam de desequilíbrios naturais desenhados para aprimoramento do indivíduo, e sua cura era obtida através da própria natureza.

Muitos relatos dizem que quando iniciavam o ritual de cura, os caraíbas modificavam suas vozes, ficavam tenras e suaves como a de crianças – Para os caraíbas, as crianças são puras, conversam diretamente com as forças da natureza, com grande liderança, sem medo, livres de atitudes negativas - quando falamos com nossos entes queridos, animais e mesmo crianças que amamos, afinamos nossas vozes, usamos o ‘tatibitati’ para demonstramos amor e afeto.

Os unguentos e tinturas não só tinham a função de medicina tópica a ser absorvida pela pele, eram espalhados pelo corpo de forma artística, para encantar a alma dos vivos, dos ancestrais e os demais espíritos - a beleza é a mais efetiva forma de cura a nosso dispor.

2- Abundancia de Ka’a – se aprendermos a enxergar ao nosso redor,  viveremos em abundancia, as matas são fartas de riquezas inesgotáveis e cambiantes, estão sempre mudando, uma miríade de alimentos e água “y” o som mais belo,

Sumé nos ensinou o básico, mas temos que descobrir mais e mais sobre tudo ao nosso redor, e a melhor forma de fazer isso é através da beleza das plantas, das flores, das pedras e dos animais. Essa beleza nos gera a curiosidade.

A natureza é livre de conflitos, como visto no texto de Nobrega, os caraíbas queriam reduzir os conflitos e brigas, enxergavam a beleza na harmonia e no crescimento de mínimo esforço:

“Na natureza não existe o conflito, as plantas não se esforçam para crescer – elas só crescem;
 As aves não se esforçam para voarem, elas só voam;

3- Todos somos caraíbas – Sumé nos ensinou que todos nós temos a curiosidade para aprender e o poder para nos tornarmos sábios, todos nós temos o poder de cura e a capacidade de adentrar ao Yby Marãne’yma, dançarmos com nossos queridos e retornarmos para casa no final do dia, tudo que temos a fazer é seguir nosso Peabiru.

Fato é que, o mito de Sumé talvez seja nossa mais antiga religião nacional, descreve a alma do Brasileiro, e explica muito de nossa essência.

Inspirado por nossa filosofia e história Tupi, criei em 2013 a HQ de Mingo, um menino que por sua pureza e leveza de espírito, visita seu o Yby Marãne’yma aqui em São Paulo - - aqui apresento as páginas do capitulo de introdução – divirtam-se!


Mingo é um menino de rua que tem um só objetivo, encontrar sua mãe. Acompanhe Mingo em suas aventuras contra os mais perigosos vilões com a ajuda dos mais inusitados personagens do cotidiano Brasileiro.

quarta-feira, 4 de julho de 2018

Lendária civilização Hi Tech Nipo Brasileira escondida na floresta Amazônica

Quando era pequeno, ouvi por algumas vezes uma lenda que dizia existir uma cultura muito avançada escondida no meio da Floresta Amazônica, tipo a Wakanda do Pantera Negra, que foi erguida em torno da sabedoria e magia de uma mulher Japonesa muito bonita e inteligente, essa lenda me assombrou por muito tempo, eu até cheguei a desenhá-la em meu caderno dos primeiro anos de escola, lembro que quando fiz o tal desenho em meu caderno, meu pai assistia um jogo da copa, (possivelmente a copa de 1974), e todo ano que tem jogos do Brasil na copa, eu me lembro dessa mulher e da estória toda.

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A esquerda, desenho que fiz de Teruko Sato quando eu era criança, a direita, o desenho que fiz no dia da vitoria do Brasil sobre o México - dia de grande felicidade do povo Brasileiro

 Não sei ao certo como tudo isso começou, como eu morava numa casa junto com mais de quatro tios-avós, todos irmãos da minha avó paterna, nunca descobri quem exatamente havia contado a tal história, bem como se era verdadeira ou não. Fato é que foi desse ponto em diante que eu talvez tenha me interessado tanto pela cultura Japonesa e acreditado que se usássemos elementos nipônicos, talvez tivéssemos a chance de termos um Brasil melhor.

 Agora, como é época de jogos do Brasil na copa, resolvi botar um fim no mistério e passei a investigar a tal sabia nipônica na Amazônia - devo dizer que foi frustrante, ninguém sabia de sua existência, nem mesmo o Google.

 Variei minha pesquisa um pouco, pois talvez o tal incidente tenha algo a ver com a Copa do Mundo de Futebol. A única coisa que encontrei foi a incrível historia da morte de Chico Xavier, com conta Eurípedes Higino, seu filho adotivo “Chico Xavier sempre dizia que iria desencarnar (morrer / do ponto de vista Espírita) no dia em que o Brasil estivesse em festa e que eu não iria ter tempo de pensar na morte dele”. Foi exatamente isso que aconteceu, Chico “desencarnou” no exato dia em que o Brasil estava na festa da conquista do pentacampeonato, no dia 30 de junho de 2002.

 Bom, mas o que isso tem a ver com a japonesa da Amazônia?

 De fato eu não sei, mas gosto da idéia de ver o Brasil, como uma massa uniforme de mentes em um único espírito, feliz.

 Se olharmos para essa multidão de brasileiros felizes do ponto de vista espírita kardecista, isso parece ser uma boa energia de grande volume – e foi com esse pensamento, resolvi tomar uma passe num centro espírita, exatamente nessa época do ano, (na minha cabeça, isso faria eu receber uma enorme carga vibratória do bem) – é ai que entra a grande coincidência!!!

 Como não tinha nenhum centro espírita perto de onde eu estava trabalhando e o jogo do Brasil logo iria começar, resolvi parar no Johrei Center da Vila Mariana, enquanto aguardava o passe, ou melhor, o Johrei, eu ouvi alguns ministros conversando sobre uma tal de Teruko Sato, a primeira mulher a trazer a cultura do iluminado Meishu-Sama para o Brasil.

 Nessa hora eu cheguei até a me arrepiar com tamanha coincidência, mas o mais legal ainda estava por vir. Meishu-Sama acredita na construção de paraísos terrestres, jardins lindos e inspiradores que aumentam o bem estar e energia espiritual da humanidade – com isso, o local escolhido para ela iniciar seus trabalhos, pasmem! Foi em uma cidade chamada de Manacapuru no meio da floresta amazônica.

Nessa hora eu interrompi os ministros e estudantes que conversavam entre si e logo contei-lhes sobre a lenda que ouvira, sobre a civilização secreta na Amazônica e a tamanha coincidência, “não existe essa coisa de coincidência’”, disse o rapaz, “tal qual no espiritismo, acreditamos que todo esse acontecimento já havia sido arquitetado em planos mais evoluídos, tal como aconteceu com a passagem de Chico Xavier”.

 Ai então ele sorriu e me decepcionou um pouco ao dizer que a igreja Messiânica não possuía nenhuma nação tipo a Wakanda no meio da Amazônia”, no entanto, Mokiti Okada (岡田茂吉), fundador da igreja, que carrega o título honorífico de Meishu-Sama - 明主様, (Senhor da Luz), idealizou sim uma sociedade mais evoluída, que constroi Solos Sagrados ao redor do mundo - lugares lindos, com arquitetura, tecnologia limpa e grande grau de desenvolvimento e harmonia com meio ambiente, como se fossem ilhas de felicidade e elegância em meio ao caos do planeta.  A Fundação Mokiti Okada desenvolve pesquisas na agricultura, recuperação do meio ambiente, agricultura individual saudável e acessível, saúde e educação e também engloba a escola de Ikebana Sanguetsu que ensina os princípios pragmáticos da filosofia de Mokiti Okada através da arte milenar do arranjo floral.

 Para mim, Teruko Sato (佐藤輝子 que adotou o nome de casada de Yoniyama 米山) é uma lenda viva, as poucas informações que tive quando criança me fizeram criar uma historia fantástica, com miscigenações de etnias brasileiras e japonesas, com tecnologia extraordinária e sustentável, de primeiro mundo, que bem poderia ter sido verdadeira, mas a Teruko Sato da vida real, que também é muito pouco conhecida pelos próprios devotos da IMM, tem atributos que superam a fantasia.

Numa matéria da revista Izunome numero 72 de 2007, escrita em japonês, a historia de Sato foi revelada - a seguir coloco o texto original em japonês e minha tradução - por favor, fiquem a vontade para me corrigirem em eventuais erros de tradução.

南米開拓布教事始め

開移民として新たな人生の船出

前編

私は、瀬戸内海に面した岡山県南部にある小さな町で昭和十一年二月四日に生を享けました。
昭和ニ十年半ば頃、世間で呼ばれていました。その「おひかりさん」と呼ばれていました。その出張所がちょうど私の実家のすぐ向かいにあり、信者さん家族が住んでおりました。その家には、私より一つ年上の友達がおり、よく遊んだり勉強したりと仲良しでした。病弱だった私の母は、真っ先にそこで浄霊を受け始めました。
そして「おひかりさんの先生が知らん話をしてくれる」とその友達が冒うので、私も話を聞きに行くようになりました。
毎月1回ほど岡山から出向される瑞雲教会長の山根幸一先生は、霊界のこと、先祖様のことなど、学校では習わないことをたくさんと教えてくださり、やがて、母に次いで昭和二十七年に私も入信に至りました。

運命の決別

明主様から米国開拓布教を命ぜられた樋口喜代子先生、安食晴彦先生がハワイや米国本土で輝かしい成果をあげられていた昭和二十九年頃は、私の教会でもいつもその話で持ちきりで、月次祭でも山根先生は海外布教ー歩を印された樋口先生の業績を讃えられて

いました。私も知らず知らずのうちに、〃樋口先生のように外国に出て布教したい〃という淡い思いを抱いていました。ちょうどその頃、父からブラジル開拓移民が募集されていること、そして一家で移住する予定であることを聞かされたのです。そのことを山根先生に話すと、先生はすぐ明主様にお尋ねくださいました。すると、明主様即座に「御神体と、「おひかり」を持たせて行かせなさい」とおっしゃったのです。先生はすぐ明主様のその御言葉を租に伝えてくださり、私のブラジル行きが確定したのでした。
しかし、移民手続きの過程で、母が眼の病の治療のため、出発が勢カ月遅れるという事態が発生しました。しかし、父の友人の家族が、f現地で一人でも多くの衛き手が欲しいとのことで、私はその家族の一員として自分の家族よりー船早くブラジルルへ渡ることになったのです。
それが、家族との長い別れになろうとは、神様しか御存知なかったのです。

御光と希望を胸に

昭和二十九年九月二十五日、弱冠十八歳の私は神戸港より大阪商船「アメリカ丸」に乗って、地球の反対側のブラジルへと旅立ちました。明主様のお役に立ちたいという熱い思
いでいっぱいで、父母と別れて淋しいとか、こわいとか、ー人でどうとかいう悲観的な考えは一切浮かんできませんでした 。しかし、船の上から見えるのは毎日海だけ、激しい船酔いのため数日間梅干しとお粥のみで過ごしたこともありました。途中米国ロサンゼルスに寄港して燃料食糧その他を補紿し、南米へ向けて出航。パナマ運河を抜け、一路大西洋へと向かいます。
いよいよ赤道下ブラジル北東部パラ州ベレン港に到着しました。そこで私達ブラジルの船に乗り換え、さらにアマゾン川を上っていきました。

そして、日本を出て実に二カ月ぶりに、アマゾン川河口から千四百キロのところにある目的地、アマゾナス州マナカプル|郡べラ・ビスタ植民地に到着したのです。
配耕される土地へは、そこからさらに半日程歩いて行かなければなりませんでした。着いた所は人がようやく歩けるほどの原生林に覆われたところでした。道の両側には、先に入った十数家族の入植者達の住まいである、伐採した原生林を無造作に組み上げた丸木小屋が数百メ|トルおきにー軒ずつあり、さらにその奥に私達に配耕される土地がありました。家も水も電気も生活必需品は何一つなく、岡山県庁の広報とはまったく逆の現実でした。
さっそく男の人達はジャングルの木々を伐探して小屋造りに追われました。女の人達は食事を作るのに必要なものを集めたり、水をる汲みに行ったり、土を捏ねて釜戸を造ったりという生活から始まりました。熟蒂特有の風土から、小虫や蚊がたくさんいて、昼夜を問わるず、ところかまわず刺されます。
数カ月分の食糧は船を降りたところにある小さな村の売店に預けてあり、一週間分ずつを歩いて取りに行きました。大きな袋を持って一往復するのにー日がかりです。女も子供もみな汗だくになりながら働きました。手には水豆ができて破れ、その上に手ぬぐいを捲いて痛さをこらえながら働きました。夜になると原生林の丸木を並べた上に寝ました。いろんな動物の鳴き声が聞こえ主す。夜通し焚火は絶やせません。
いつどんな動物が出てくるか分からず、緊張の毎日が続きました。

失意のどん底からの脱出

そんな生活の中、みんなが寝静まった夜、私は一人蚊帳の中から星空を見上げ、 "どうしてこんな所に来てしまったのだろう......。

明主様のお役に立とうとやって来たブラジルがこんな原生林の山奥。家も電気も水もない原始的な生活。明主様はもう私を見離されたのかしら。なぜこんなつらい思いを、苦労をさせられるのかしら。
このお月様、お父さん、お母さんは見ているかしら。どうして私ー人で来てしまったのかしら。明主様はこんなところと御存知なかったのかしら……“なと思い巡らしては毎日のように泣いていまた。
しかし、”こんなことばかりしていてはいけない。せめて入植者達に御浄霊を広めねは"と思い直し、風邪を引いた人、皮膚に湿疹のできた人に浄霊の話をしてみることにしました。ところが誰も受けつけてくれませしまいには「手をかざして病気が治るわけがない。
あの娘は親から離れてー人で来もて、もう頭がどうかしているのだ」などと噂されるようになりました。そして、その周囲の視線の冷たさに耐えきれなくなった私は、"もう宗教のことも浄霊の話も口にすまい"と決め、ひたすら働き始めました。
また私はー緒にブラジルに来た家族と別れ、独り立ちすることを決意しました。人の手が足りない家は、私を容易に住み込みで雇ってくれます。あちこち他人の家で草取りをしたり、寄せ焼きをしたり、さつま芋を土手に植えたり、毎曰毎曰働きました。そして、私は考えました。"こんな不便な山奥にもし私の母が来たら病に倒れるかも知れない。鍬ー鍬本握ったことのない町育ちの幼い弟、妹達はこんな過酷な労働には耐えられない。
こんな所に来たら一家は破滅だ。私は意を決して日本の父母に「もうブラジルには来たい方がいい、こんな苦労は私ー人でたくさん、来てはいけない」と手紙に書きました。
何ヵ月か経って母からの手紙が届きました。手紙が無事に日本に届き、無事返事が来ることさえ。ここでの生活では奇跡に近い出来事でした。急いで封を開けてみると、そこには私の身を案じる父母の気持ちと共に、思いもかけない事実が認めてありました。

明主様の御昇天の知らせでした。私は立っていられない程のショックで涙も出ませんでした。しかし、"必ず明主様は霊界から見守ってくださっている。私を見ていてくださる。
泣いたら明主様が悲しまれる"と、思い直しましたが、それでも心の整理がつくまでに二、三日を要しました。

Manacapurú - a 99,8km de Manaus no estado do Amazonas
A esquerda  a Senhora Yoneyama (Teruko Sato com nome de casada) e a direita
Michiko Yamande, lider da ireja Zuiun - maio de 1953
瑞雲教会奉仕の頃の米山さん(左)と故・山根道子教会長夫人(昭和28年5月)

運命の転機

ある日、真っ黒になって働いていた私に、「人が欲しい、来てくれないか」と、内藤さんという方が尋ねて来たのです。私は恩い切ってその方とー-緒に、私を雇ってくださるという方がいる、アマゾナス州バレンチンスに近いイタコアチャラ郡のモンテ・レアルに行くことにしました。
内藤さんに連れられて、再び船の旅です。私は、御神体と御尊影、そして「おひかり」十体に数枚の着替えを持ち、ベラ・ビスタを後にしました。着いたところは、御園さんという方が経営する食料雑貨店でした。
私はこの店で、昼間働きながら、夜はランブの明かりを頼りにポルトガル語を勉強しました。初めは、原地住民との挨拶から日常のこと料理のこと、見るもの、聞くものすべて、日本と違った生活習慣でした。
しかし、それまでの植民地生活からすると、天と地の違いがありました。脚園さん鐔夫妻は、私を娘のように扱ってくださいました。仕事も覚え、言葉も片言でしたが何とか話が通じるようになりました。
心機一転、私は与えられた新しい環境の中で何とか布教しうと思い、つたない言葉で浄霊の話をしてみることにしました。
何日も何回も話すうち、私があまりに一生懸命言うので頭をかしげながらも話を聞いてくれる人が出始めました。もちろん、浄霊の意味などをしっかりと説明するまでには至りませんでしたが、徐々に浄霊のぉ取次ぎが次々とできるようになです。

日本からの使節団

ある日、母から再び便りが届きました。手紙には、「明主様御昇天後、小田信彦先生という方がブラジル布教のためクリチーバに行とれたので、その先生と一緒に布教したらどうか」との、山根先生からの言付けが書いてありました。

ルイズ・パガノで翻訳

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Primeira missão na América do Sul, o começo de uma nova vida como imigrante
Tradução da primeira parte


Nasci em uma pequena cidade ao sul de Okayama, em 4/2/1936 (Showa/昭和 - 11 é o ano de 1936). Em meados de 1945, numa época em que a Igreja Messiânica e seus membros tinham o apelido de “Ohikari-san”. Existia em frente a minha casa uma família de fieis da Igreja Messiânica, como minha mãe estava doente, eles vinham em casa aplicar o Johrei nela, em 1952, nós nos tornamos membros. Mensalmente, o ministro responsável da Igreja dava palestras nas quais falava sobre o Mundo Espiritual e os antepassados, o tipo de coisa que não se aprende na escola, foi quando atingi a maioridade.

Rumo a partida

Já nos anos de 1945 o ministro dessa unidade religiosa nos contava os relados dos missionários Yamane os relatos da ministra Kiyoko Higuti e Haruhiko Ajiki no Havaí e nos Estados Unidos. Ouvindo essas estórias, aos poucos, passei a cultivar o desejo de dedicar-me à difusão desses ensinamentos no exterior, a exemplo da ministra Higuti. Nessa época, soube que minha família planejava imigrar para o Brasil.

Ciente desta possibilidade, o ministro Yamane fez um pedido ao Meishu-Sama, que imediatamente disse: “Entregue-lhe a imagem de Deus e o Ohikari para que ela leve consigo”. Diante desta resposta de Meishu-Sama, minha certeza de ida ao Brasil se fortaleceu ainda mais. Contudo, durante o processo de pedido de imigração, minha mãe foi acometida de um problema de visão que atrasou a nossa partida.

Como uma família conhecida queria migrar para o Brasil e necessitava aumentar o número de pessoas para o trabalho, optei por embarcar antes de meus familiares. Só Deus sabia na época que a separação de minha família seria mais longa do que tinha imaginado...

Luz e esperança em meu coração

No dia 25 de setembro de 1954(Showa/昭和 - 29), aos 18 anos, eu embarquei no navio America Maru que partiu do porto de Kobe,  deixei o Japão em direção ao Brasil levando comigo o forte desejo de servir a Meishu-Sama.

Em momento algum fiquei pessimista, senti medo ou tristeza por partir sozinha. Durante a viagem, o tempo que passei em alto-mar não foi fácil, durante longos dias, tive que comer umeboshi (梅干し - ameixa chinesa em conserva) e Kayu (お粥 também chamada de congee, é uma sopa de arroz cozida com carne) diariamente por causa dos enjôos causados pela viagem marítima. Após uma pausa em Los Angeles para abastecimento de combustível e mantimentos, cruzamos o canal do Panamá, tendo chegado ao norte do Brasil, no porto de Belém. Fomos transferidos para um navio brasileiro e subimos o rio Amazonas. Desde que deixara o Japão, dois meses haviam se passado. Chegamos à colônia de Bela Vista, localizada no estado do Amazonas, distrito de Manacapuru, após uma viagem de 1.400 km. Até chegarmos à fazenda, foi necessário andar cerca de meio dia. O local ficava no meio da floresta, de ambos os lados da torpe estrada moravam algumas famílias de colonos que lá procuravam se estabelecer. Não havia moradia, água, energia elétrica ou instalações necessárias à vida cotidiana, a realidade lá era muito diferente da que eu tinha em Okayama.

Imediatamente, os homens puseram-se a derrubar árvores para construir assentamentos, e as mulheres se dedicavam a preparar a alimentação. Devido ao clima tropical, éramos picados por insetos e mosquitos dia e noite. Enfrentamos muitos desafios nesta época de adaptação. Mantimentos chegavam regularmente numa lojinha, localizada numa aldeia que só podia ser acessada de barco, levávamos um dia para transportar tudo em enormes sacolas, as mulheres e crianças trabalhavam e estavam sempre suadas, bolhas se formavam nas mão e estouravam, colocávamos toalhas para mitigar a dor, a noite dormíamos em meio os troncos, ouvíamos vários ruídos de animais, era imprescindível que a fogueira jamais se apagasse durante a noite, não sabíamos quando e por qual animal poderíamos ser atacados, vivíamos em dias de medo e tensão inesgotáveis.

習志野浄霊センター - 米山晃子Narashino Johrey Center - Akiko Yoneyama - Teruko Sato

Me afastando da depressão profunda

Em meio a esta dura realidade, à noite, enquanto todos dormiam, costumava olhar as estrelas através das redes de mosquitos e a chorar me perguntando: “O que vim fazer neste lugar?”... Queria servir a Meishu Sama e vim para o meio da floresta, viver uma vida primitiva, sem luz e nem água. Será que Meishu Sama me abandonou? Por que preciso passar por tanto sofrimento? Será que meus pais estão olhando para essas mesmas estrelas? Por que acabei vindo, sozinha? Será que Meishu Sama sabe de mim aqui?

Por outro lado, pensava em minha missão. “Talves eu possa ministrar Johrei nos colonos...” Passei a ministrar Johrei em quem estivesse gripado ou com eczemas. Contudo, eles não acreditavam que eu pudesse curar as doenças, simplesmente empostando as mãos.

A filha da família com quem convivia chegou a dizer que eu tinha problemas mentais, ou coisa do gênero. Diante de tal desprezo, decidi que não mais tocar no assunto de Johrei ou religião, comecei então a trabalhar mais ainda e optei por me afastar da família com quem viera ao Brasil. Morava com famílias que estivessem precisando de mão-de-obra, roçava os quintais das casas, plantava e fazia batata-doce assada.

Diante disso, pensei “se minha mãe vier, certamente ficará doente com tanto desconforto, as delicadas mãos dos irmãos e irmãs que cresceram com os livros, não aguentariam as enxadas, se vierem para cá, minha família será arruinada.

Assim, escrevi aos meus pais pedindo que “desistam de vir para o Brasil pois passo por muitas dificuldades aqui”. Alguns meses depois, após minha carta ter chego sã e salva no Japão, recebi uma carta com a resposta de minha mãe, isso soava como um milagre para a realidade que eu tinha.

Apressadamente rasguei o envelope, e fiquei tomada por emoção, era muito bom saber que meus pais não haviam se esquecido de mim aqui, a carta trazia a triste notícia da ascensão de Meishu Sama ao Mundo Espiritual. Agora sentia que ele olhava por mim, chorei muito em luto, demorou muito para que a tristeza passasse.

A virada do destino

Certo dia, em meio ao meu trabalho na lavoura, o senhor Naito disse-me que precisava de pessoas para trabalharem consigo. Assim, novamente de barco, parti para Monte Real no distrito de Itacoatiara, próximo a Parintins, AM, levando comigo a imagem de Deus e alguns Ohikari, ele falava que alguém queria me contratar.

Fiz uma outra viagem de barco, carregando roupas imperiais paro o Sr. Naito  e chaguei a uma mereceria, administrada por Misuno-san.

 Trabalhava durante dia e durante a noite tentava estudar português, sob a precária luz de um lampião. Inicialmente, tive muitas dificuldades com os  costumes, língua e alimentação em comparação com a vida no Japão. No entanto, aquele lugar era para mim o paraíso na terra, em relação à vida que levava na colônia anterior, em Bela Vista, tudo tinha mudado para melhor.

A maravilhosa esposa do Sr. Shigaru me tratava como uma filha. Aprendi o serviço e, em meio a um novo ambiente, novamente me empenhei em difundir o Johrei, e para meu deleite, minhas histórias começaram a ser ouvidas.

Dessa vez eu havia mudado de idéia, agora eu podia falar sobre o Johrei, me esforçava para explicar, embora muitas vezes as pessoas coçavam a cabeça sem terem entendido muito bem, mas mesmo assim, pouco a pouco, mais purificadas, as pessoas compendiam melhor a proposta de tudo aquilo.

Missão que veio do Japão

Algum tempo depois, mais noticias chegavam, recebia uma correspondência
de minha mãe que contava que o Sr. Yamane, após a ascensão de Meishu Sama, um ministro chamado Nobuhiko Shoda pedia para que eu fosse a Curitiba com ele para fazer difusão no Brasil...

Traduzido por Luiz Pagano
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 Como deve saber o caro leitor, me considero um Omni Religioso, acredito, estudo e respeito todas as religiões e dou valor no bem que elas causam. Eu já havia estado em Uberaba e conheci pessoalmente o Eurípedes, era um dia 08 de dezembro de 2011, tomei um café e comi pão de queijo com ele, que gentilmente me mostrou todos os aposentos, contou estórias de Chico, me mostrou a arvore que ele (Chico Xavier) havia plantado no quintal, bem como todo complexo que ele havia construído para ajudar o maior numero de pessoas possível, com ele e mais um grupo de dez pessoas, fui ajudar a cozinhar e servir as mais de mil pessoas carentes no refeitório. Eu acredito de fato que a melhor forma de criarmos uma sociedade evoluída em todos os sentidos é nos mobilizando proativamente nisso, devemos começar por copiar os exemplos de pessoas como Mokiti Okada, Teruko Sato e Chico Xavier - para promovermos a melhoria moral das pessoas ao nosso redor e ao mesmo tempo, muito alem de darmos as condições de dignidade, promovermos o desenvolvimento fisico e estrutural do grupo, considerando cada integrante como um elo importante, confiável e talentoso, em uma sociedade que dá prazer trabalhar pelo bem comum e de cada indivíduo, isoladamente.

 Com isso, aproveitei o dia de jogo da copa, quando pessoas estão muito felizes com a vitória e uma vibração espiritual grande e plural, do tamanho de nosso país e resolvi refazer o desenho da Teruko Sato (ilustração abaixo)... a minha Teruko Sato – mulher japonesa que adotou a cultura dos indígenas em suas pinturas e roupas. No meu universo pessoal a tal cultura evoluída, Nipo-Tupiniquim tem até nome, ochama-se yvyturokai (pronuncia-se algo como "UVUTUROKAI" - os dois primeiros 'Us' tem um som parecido com o do ~ da palavra 'SÃO' - e significa PARAÍSO em Guarani –, lugar onde as pessoas estão bem formadas e são bem educadas).

No meu desenho, a Teruko Sato (佐藤輝子) de meu universo pessoal, dança suavemente sobre o tronco cortado, tal como desenhei em minha infância, em harmonia com as forças da floresta, tem um boto-cor-de-rosa a sua esquerda e um tucuxi à direita - parece até uma personagem do anime Avatar.


domingo, 8 de outubro de 2017

A primeira loja geek com elementos brasileiros – uma aposta arriscada

Luiz Pagano, orgulhoso de sua primeira loja geek de elementos Brasileiros - a inauguração foi celebrada com autentico Cauim de mandioca 
Como sabem, escrevo o Blog ‘Ame o Brasil’ já a algum tempo, devo assumir que vivo preso a uma doce maldição, a de amar o Brasil.

Para mim existem dois Brasis, O Brasil Utópico, que tem realidade e vida própria em minha mente, que parece com um Japão do futuro onde se toma o Cauim ao invés de saquê e se fala o Tupi ao invés de japonês, e o Brasil Distópico, o Brasil chato que vemos no Jornal Nacional, com muito crime e corrupção na administração publica e miséria vivida por grande parte de nossa gente.

Depois de anos escrevendo o Blog ‘Ame o Brasil’ e teorizando sobre o Brasil dos meus sonhos, tomei a decisão de fazer algo inédito e inovador, (até onde eu sei, eu fui o primeiro a fazê-lo) – resolvi trazer o Brasil de minha mente, ricamente estruturado, para o mundo real e criar uma Pop Up Store, só com coisas muito legais do Brasil – Dediquei toda minha paixão e meus escassos recursos próprios para esse projeto.
Orixás e Tribos brasileiras em toy art, expostos na primeira loja geek de elementos Brasileiros

Não se tratava de uma loja dessas que vende araras de gemas semipreciosas, e outras coisas estranhas para turistas, nem de esculturas de barro do nordeste (que eu curto muito, a propósito), más sim, uma loja que pudesse encantar a nova geração de Brasileiros - sabe o sentimento de entrar numa loja geek Japonesa, onde você vê uma moto muito legal do Kaneda do desenho Akira, em meio a diversos outros toys, de diversos mangás e animês atuias... é disso que estou falando. Eu tenho formação em Marketing, trabalho a anos na área comercial, precisava testar minhas idéias e teorias, precisava conversar com o cliente, saber o que ele pensava enquanto segurava um toy art da etnia Waurá em suas mãos.

Encontrei um espaço ideal nas imediações da Vila Madalena, próximo a praça Benedito Calixto. A inauguração foi feita com amigos e celebrada com o Cauim, elegante fermentado de mandioca produzido pelos alunos do professor Hildo Sena, da FATEC de Araçatuba. Na loja coloquei a venda pequenas capivaras coloridas do movimento que criei, ‘Capivara Parade’, alocadas num display móvel de capivara em tamanho grande, Orixás e tribos indígenas representados em 'toy art', comics de heróis da literatura brasileira, tudo feito em formato de comunicação Geek.

Foi uma audácia enorme tirar esse Brasil de minha mente, com recursos próprios, em época de tamanha crise de valores e identidade nacional, más o resultado... Eu vou dizer... FOI SURPREENDENTE! :

Posso descrever o processo de aceitação dessa loja pelo publico em 4 fases distintas, que ao meu ver, refletem muito bem como o brasileiro ama seu próprio país:

Fase 1- O CHOQUE - A princípio, as pessoas entendiam como se fosse uma piada, depois se dedicavam à projetar o amor que sentem pelo Brasil nas peças, alguns ainda com muita timidez e repleto de muitas cicatrizes, gostavam do que viam e diziam "que legal! Nunca imaginei ver esses elementos brasileiros de forma tão 'cool'!" Mas nos primeiros dias ninguém comprou nada;

Fase 2- BAIXA AUTO ESTIMA E COMPAIXÃO - Na segunda semana, percebi que os clientes que retornavam, se surpreendiam de eu insistir na 'bobeira brasileira', teve uns caras bem legais, que me davam conselhos "isso tudo é legal, mas porque vc não faz toy art com coisa q vende, tipo... integrantes ingleses de banda de rock"...  outros poucos compraram índios e capivaras sem falar nada e saíram rapidamente da loja;

Fase 3 - A RENDIÇÃO AOS VALORES BRASILIEROS MAIS INTIMOS - Nas semanas seguintes, o comportamento dos consumidores começou a ser mais positivo, as pessoas voltavam para tirar foto ao lado do móvel em forma de capivara, alguns perguntavam quando iria chegar a toy art de Oxum, outros deixavam seus filhos desenharem os indiozinhos numa prancheta que coloquei na loja para entreter as crianças;

4 - AS PESSOAS AMAM O BRASIL MAS TEM UMA BAITA VERGONHA DE ASSUMIR  - nos meus últimos dias, dizia aos clientes que o projeto estava no fim é que eu iria embora – foram os dias de melhores vendas, parece que o medo de não ter um toy art Indígena, ou de um Orixá bateu forte.

Lembro até de ter sido abordado por um senhor, que mais se aproximava de um ‘cliente habitue’ dessa Pop Up Store, que me disse “por favor, não feche a loja, precisamos que voce fique mais tempo aqui para inspirar mais gente  fazer o mesmo” um grupo de pessoas se juntou ao lado dele para me convencer a ficar, juro que fiquei emocionado... mas infelizmente, meus recursos haviam se esgotado, eu precisava de mais tempo e dinheiro para fazer a loja decolar.

Vitrine em forma de Capivara, nos moldes da 'Capivara Parade' que se abre para expor pequenas capivaras com intervenções de artistas

O Brasil Utópico e o Brasil Distópico

A loja não teve grande retorno financeiro, mas as lições aprendidas foram maravilhosas, a conclusão que tiro é que não sou só eu que vivo nesse ‘Brasil Dual’, todos nos brasileiros vivemos em dois Brasis, todos nós somos 'Policarpos Quaresmas' de coração.

Não tenho a pretensão de iniciar uma escola cuja o objetivo seja o de ensinar o brasileiro a amar o Brasil, o escritor brasileiro Lima Barreto já fez isso por mim, possivelmente ele também tinha uma Brasil Utópico em sua mente, também vivia o mesmo ‘Brasil Dual’ que eu vivo – deixa isso claro em seu livro ‘Os Bruzundangas’, no qual o fictício país da Bruzundanga representa o Brasil Distópico e o utópico, o próprio Brasil mesmo.

Certa vez, indagado sobre como enxerga o Brasil, Vinicius de Moraes deu uma resposta que reflete exatamente o que sinto “tenho uma grande fé no Brasil. Uma fé meio estúpida, meio instintiva, por causa do povo. Realmente, a minha fé no Brasil não vem das instituições, nada disso. Pelo contrário, acho que elas têm sido extremamente negativas para o país. Agora, eu acredito neste povo. E cada vez que eu volto ao Brasil, de alguma viagem ao exterior, essa crença aumenta, compreende. E como essa crença é um bem gratuito, eu prefiro tê-la a não tê-la”.