Linha do tempo das garrafas
2015 – Primeira fermentação (Processo Japonês - Pagano ) - 2 un. No dia 12 de outubro de 2015 preparei o primeiro cauim no estilo japonês. A bebida foi colocada em duas garrafas de cerâmica de baixa queima de Icoaraci, que acabou formando oxalato de cálcio na parte externa. Uma dessas peças foi presenteada ao Rogério Rabbit, bartender santista de ascendência guarani, considerado um dos dez melhores do mundo pela IBA e premiado em Bordeaux em 2007 (3º lugar) e 2008 (2º lugar) .
Essa formação branca na garrafa, chamada eflorescência, surgiu de maneira inesperada, mas pode ser um dos atributos mais fascinantes do Cauim Tiakau. A cerâmica indígena é naturalmente porosa e, à medida que o cauim permanece em contato com suas paredes, parte do líquido pode penetrar lentamente pelos capilares do barro. A acidez da bebida favorece a dissolução e o transporte de minerais presentes na cerâmica e de compostos provenientes da própria mandioca. Quando essa umidade chega à superfície externa e evapora, os sais podem se concentrar e recristalizar, formando essas delicadas estruturas brancas.
Entre os compostos envolvidos pode estar o oxalato de cálcio hidratado (CaC₂O₄·H₂O), relacionado aos cristais de oxalato presentes naturalmente na mandioca, além de carbonato de cálcio (CaCO₃) proveniente do material mineral da cerâmica. Na planta, o oxalato tem uma função de defesa. A primeira e mais conhecida linha de defesa da mandioca é o ácido cianídrico (HCN), liberado a partir de seus glicosídeos cianogênicos quando a raiz é danificada. O oxalato atua como uma defesa secundária: a mandioca armazena cristais microscópicos de oxalato de cálcio, formando ráfides e drusas dentro de células especializadas chamadas idioblastos. As ráfides, em particular, têm formato de pequenas agulhas e podem causar irritação e danos mecânicos nos tecidos da boca e do trato digestivo de animais que tentam consumir a planta crua.
E aqui está a parte mais interessante: essa formação não foi planejada — ela foi descoberta. A própria bebida está interagindo lentamente com o barro, deixando na superfície externa da garrafa uma espécie de registro mineral dessa convivência entre cauim, mandioca e cerâmica. É quase como se a garrafa estivesse contando a história do que aconteceu dentro dela.
Imagine comprar uma garrafa de Cauim Tiakau e descobrir que, com o tempo, a bebida já interagiu com a própria cerâmica a ponto de criar eflorescências em sua superfície. Há algo de muito especial nisso — uma ideia que lembra, de certa forma, o que acontece com um whisky durante anos de interação com a madeira de um barril: o recipiente deixa de ser apenas embalagem e passa a participar da história da bebida.
No Cauim Tiakau, essa transformação acontece de uma maneira muito mais visível e ancestral: o barro não apenas contém a bebida; ele participa dela.2016–2018 – Segunda Garrafa - Camusi (Processo enzimático com Hildo Sena) - 10 un Durante esse período trabalhei no método enzimático. Essa garrafa foi levada ao Bar Convent São Paulo em junho de 2019, onde apresentei o cauim em degustação e participei de um jantar harmonizado com a chef indígena Kalymaracaya, no Hotel Toryba em Campos do Jordão .
2018–2019 – Terceira garrafa, Rótulo Espiritual - 10 un Criei um rótulo rudimentar escrito com a fonte Novo Tupi, desenvolvida dentro do projeto Tupi Pop para revitalizar a escrita indígena . Essa garrafa foi destinada a lideranças de várias etnias e levada ao centro espírita em homenagem ao Anjo Ismael, tutor espiritual do Brasil. Saiba mais sobre o Novo Tupi no Omniglot
2019 em diante – Quarta garrafa - Retangular - 10 un Essa foi a mais distribuída como amostra. Eu raramente vendi o cauim; preferi compartilhar com jornalistas e stakeholders, buscando aliados para difundir a ideia.
17 de julho de 2023 – Quinta garrafa, Edição Especial Dia do Anhanga Criei uma edição comemorativa de 5 unidades com o rótulo do Anhanga para celebrar o Dia do Anhanga no Vale do Anhangabaú, em São Paulo .
2025 – Sexta garrafa, Feira Naturebas de Lis Cereja - 40 un Essa edição foi feita para o Naturebas São Paulo e marcou as únicas vendas até hoje, durante evento organizado por Lis Cereja, referência em vinhos naturais e fundadora da Enoteca Saint VinSaint, que funcionou de 2008 até novembro de 2025 . Um detalhe interessante é que, devido à pressa em engarrafá-lo para o evento, escrevemos "caium" em vez de "cauim".
2026 – Sétima garrafa, “Raiz Quadrada” - 15 un Batizei essa garrafa quadrada de “Raiz Quadrada”, em homenagem à raiz da mandioca. Sua geometria remete ao valor da raiz quadrada de dois, metáfora da harmonia entre ciência e natureza.
Caminho até a garrafa 100
Hoje já são 92 garrafas de Cauim Tiakau espalhadas pelo Brasil, cada uma carregando uma história de resistência cultural e inovação. Estou prestes a alcançar a garrafa número 100, e cada etapa reforça que o cauim não é apenas uma bebida, mas um fermento de ideias, encontros e orgulho de ser brasileiro.
Por que uma garrafa diferente para cada lote?
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| Luiz Pagano em Åhus, na Suécia - out/2013 |
Quando trabalhei com a Absolut, aprendi que uma garrafa podia ser muito mais do que um recipiente: ela podia ser narrativa, memória e identidade. Essa percepção ganhou uma dimensão especial durante minha visita à Suécia, em outubro de 2013, quando tive contato mais próximo com a cultura por trás da marca e com pessoas que entendiam a bebida não apenas como produto, mas como experiência.
Entre elas estava Per Hermansson, então diretor de Análise Sensorial da Absolut, um dos grandes especialistas mundiais em percepção de aromas e sabores. Per costumava lembrar que a percepção sensorial é objetiva e universal, enquanto o gosto é subjetivo: nossos sentidos podem perceber determinadas características de maneira semelhante, mas a interpretação e a preferência são moldadas pela experiência, pela cultura e pela memória.
Essa ideia ficou comigo: um produto não é apenas aquilo que está dentro da garrafa; é também tudo aquilo que conseguimos perceber, interpretar e lembrar a partir dele.
E a história da Absolut Elyx tornou essa ideia particularmente evidente para mim. A Elyx não nasceu com uma sucessão anual de garrafas, mas passou por cinco grandes edições, cada uma marcando uma etapa de sua construção como marca.
A primeira edição, de 2010, foi a origem da Elyx, ainda apresentada de maneira bastante discreta e técnica. Em 2011 veio a segunda edição, sem o grande texto da primeira garrafa e com um rótulo de cobre. A própria Absolut registra essas duas primeiras versões como pequenos lotes, embora não divulgue oficialmente quantas garrafas foram produzidas em cada uma.
Em 2013 surgiu a terceira edição, e aqui aconteceu uma mudança de escala decisiva: foram produzidas 3 milhões de garrafas, muito mais do que nos dois lotes anteriores. A Elyx passou a ser apresentada internacionalmente como uma vodka de luxo artesanal, produzida a partir de trigo selecionado de uma única propriedade e destilada em cobre.
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| Anotações e desenhos de Luiz Pagano - out/2013 |
Foi justamente em 2013, ano da minha visita à Suécia, que a marca também ganhou uma nova dimensão cultural. Johan Lindeberg foi escolhido como seu primeiro Creative Director, trabalhando ao lado de Jonas Tåhlin, então Vice President of Global Marketing da The Absolut Company. A campanha com Chloë Sevigny ajudou a estabelecer uma linguagem de luxo baseada menos em ostentação e mais em autenticidade, herança, criatividade e integridade.
Anos depois, a Elyx continuou evoluindo. Em 2019 veio a quarta edição, com uma garrafa de desenho mais arquitetônico e facetado, incorporando inclusive 40% de vidro reciclado.
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| Luiz Pagano e Per Hermanson, da Absolut, em campo, explorando bebidas brasileiras para criar outras novas bebidas. (Cantinho do Frango, em Fortaleza) Out/2014 |
Finalmente, em 2024, a Absolut registrou sua quinta edição, mantendo o mesmo líquido e redesenhando a embalagem. Essa evolução chegou ao mercado em 2025 acompanhada de uma mudança ainda mais significativa: a marca passou a se chamar simplesmente Elyx Vodka, abandonando o nome Absolut para reforçar seu posicionamento como vodka super-premium.
Assim, a história da Elyx pode ser resumida em cinco momentos:
2010 — primeira edição
2011 — segunda edição
2013 — terceira edição, 3 milhões de garrafas
2019 — quarta edição, com 40% de vidro reciclado
2024/2025 — quinta edição e transformação em Elyx Vodka
O que mais me marcou foi perceber que a garrafa acompanhava a evolução da própria narrativa da marca. Ela não era simplesmente uma embalagem que permanecia estática enquanto o líquido era consumido; era parte da linguagem pela qual a bebida se apresentava ao mundo.
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| Selo de "Feito no Brasil" em Tupi Antigo, BRASILYPE MIMONHANGUERA, com font Novo Tupi (faça o dowload da font) |
Essa experiência me influenciou profundamente na criação do Cauim Tiakau. Eu não queria simplesmente escolher uma garrafa e colocar cauim dentro dela. Queria que cada garrafa pudesse registrar um momento, uma descoberta, uma pessoa, uma experiência ou uma etapa da própria evolução do projeto.

















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