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Tupinista nas Bienais

Luiz Pagano - o tupinista refletido na obra de Kahtiri Ēõrõ (espelho da Vida) criada pela artista indígena Daiara Tukano, exposta na 34ª Bienal de São Paulo (2021) é que você podia se ver como uma moçacara (um homem importante entre o povo tupi) refletido usando um manto tupinambá.

Em setembro/outubro de 2021, São Paulo vivenciou uma invasão 'tupinista', em uma nova era que começou logo após o fim da pandemia e ofereceu a promessa de uma nova vida com novos propósitos e novas esperanças, especialmente para mim, que já estava fazendo grandes progressos com o cauim contemporâneo, quase 100 anos depois da semana antropofágica de 1922.

Depois disso, em fevereiro de 2025, o jardim do Museu Brasileiro da Escultura e Ecologia (MuBE) recebeu uma ativação artística especial associada ao universo visual e curatorial da MUBI. A proposta foi transformar o espaço do museu em um ambiente imersivo onde cinema, arte contemporânea e cosmologias indígenas se encontravam.

No MuBE, você poderia deitar em redes e ouvir os sons dos pássaros amazônicos.


Logo na entrada, o visitante era recebido por duas enormes serpentes coloridas — esculturas infláveis do artista indígena Jaider Esbell. A obra, chamada Entidades, faz parte de uma série de instalações do artista inspiradas na cosmologia do povo Macuxi. 

As serpentes representam a figura mítica da “cobra grande”, um ser ancestral que atravessa mundos e mantém o fluxo das águas e da vida.

Em outubro de 2021, as serpentes gigantes da obra “Entidades”, do artista indígena Jaider Esbell, estavam instaladas no lago do Parque Ibirapuera como parte da 34ª Bienal de São Paulo. As duas esculturas infláveis, com cerca de 24 metros de comprimento, flutuavam sobre a água e foram posicionadas de forma simbólica como se estivessem “prontas para dar um bote” no monumento a Pedro Álvares Cabral localizado na outra margem do lago, numa provocação crítica à narrativa tradicional do “descobrimento” do Brasil. A obra representa a entidade mítica Îkîimî da cosmologia indígena, uma serpente primordial que atravessa mundos e simboliza transformação, fertilidade e a força da natureza. 


Antes de chegar ao museu, essas serpentes já haviam se tornado um verdadeiro marco visual da cidade. Em 2021, elas flutuaram no lago do Parque Ibirapuera durante a 34ª Bienal de São Paulo. Naquela ocasião, as duas cobras gigantes foram posicionadas no espelho d’água em frente ao monumento a Pedro Álvares Cabral, como se estivessem prestes a dar o bote. A ideia de Esbell era provocar uma reflexão sobre a história oficial do “descobrimento” do Brasil e lembrar que, para os povos indígenas, essa história também pode ser vista como invasão e resistência. 

Durante a noite as Entidades ficavam iluminadas


No MuBE, as serpentes funcionavam quase como um portal simbólico para a exposição. Ao atravessar esse limiar, o visitante encontrava um conjunto de obras de artistas indígenas contemporâneos: pinturas, grafismos, objetos rituais reinterpretados e estruturas construídas com terra, barro e materiais naturais. Algumas dessas instalações lembravam pequenas tendas ou formações orgânicas, evocando tanto a arquitetura tradicional quanto paisagens espirituais da floresta.

O mais interessante da obra Kahtiri Ēõrõ (espelho da Vida) criada pela artista indígena Daiara Tukano, exposta na 34ª Bienal de São Paulo (2021) é que você podia se ver como uma moçacara (um homem importante entre o povo tupi) refletido usando um manto tupinambá.


A exposição procurava mostrar como a arte indígena contemporânea não é apenas memória do passado, mas também criação ativa no presente. Ao lado da monumentalidade das serpentes de Esbell, as obras apresentadas no espaço sugeriam uma cosmologia viva — onde arte, território e espiritualidade continuam profundamente conectados.

Outra obra que conversava bem com essa invasão tupinista em São Paulo era a escultura Soláris, da artista brasileira Eliana Zaroni, é uma estrutura orgânica feita de cerâmica e metal que lembra formas biológicas, como uma medula ou coluna vertebral. Conhecida por trabalhar com volumes curvos e materiais ligados à terra, Zaroni cria obras que evocam crescimento, energia e transformação. Instalada na estação Pedro II do metrô de São Paulo, a obra convida o público a observar suas cavidades e atravessamentos, criando um diálogo entre arte contemporânea e o fluxo cotidiano da cidade.


O resultado era uma experiência estética muito particular: um diálogo entre cinema de autor, arte contemporânea e cosmologias indígenas, transformando o MuBE em um espaço onde tradição e modernidade se encontravam de forma inesperada. Para quem passava por ali, a sensação era quase cinematográfica — como se a cidade abrisse momentaneamente uma porta para outros mundos possíveis.

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