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Doutrina Tupinista Moderna

Tudo começou com um gole. Meu paladar infantil sentiu uma repulsa imediata diante daquele aspecto tão estranho e, ao saber que o cauim havia sido preparado com saliva, tive uma enorme vontade de desistir antes mesmo de provar. Mas eu jamais faria uma desfeita àquela gente tão boa e acolhedora. E assim bebi o cauim. 

Posso dizer que, a partir daquele momento, existiu um antes e um depois do cauim. Senti um turbilhão de emoções, inicialmente muito confusas. Eu trabalhava então na Pernod Ricard, desenvolvendo argumentos e conhecimento no universo da degustação de bebidas, e me lembro de ter comentado com o colega que havia me levado até lá: o sabor inicial era estranho, mas surpreendentemente melhor do que eu imaginava. Se eu abstraísse os problemas decorrentes da exposição a bactérias e de possíveis contaminações, havia naquela bebida um frescor e um umami absolutamente únicos. A percepção foi quase imediata: 

“Cara, dá para recriar isso como uma bebida para ser colocada no mercado.”

A partir daquele instante, surgiram mil perguntas, agora essencialmente de ordem prática: como transformar novamente a mandioca fermentada em uma bebida contemporânea? Como deveria tratar essa matéria-prima para recriar uma das bebidas mais antigas e emblemáticas do Brasil? E, principalmente, que sabor poderia ter essa bebida? Seria parecida com saquê? Teria alguma relação com pão de queijo? Como poderia existir no mundo contemporâneo sem perder aquilo que a tornava singular? Vieram então a microbiologia, a fermentação, as enzimas, a legislação, a tecnologia, a história, a antropologia, o design e a necessidade de compreender uma bebida cuja continuidade havia sido brutalmente interrompida. O que começou com um gole cercado de estranhamento acabou se transformando em uma investigação que atravessaria anos e, sem que eu percebesse naquele momento, começaria também a transformar a maneira como eu próprio enxergava o mundo.

Foi assim que um projeto que inicialmente parecia pertencer ao campo da gastronomia e da tecnologia começou a ocupar um espaço muito maior dentro da minha vida. 

Eu não estava apenas tentando reproduzir uma bebida antiga. Estava tentando compreender o que havia sido interrompido quando aquela bebida deixou de fazer parte da vida cotidiana de grande parte do Brasil. E, nesse processo, percebi que talvez não fosse possível trazer o cauim de volta sem que alguma coisa em nós também fosse transformada.

Passei a reaprender o Tupi Antigo, uma língua que praticamente desapareceu juntamente com o mundo cultural que a sustentava. E então surgiu uma percepção estranha: talvez uma língua não seja apenas uma ferramenta para descrever uma realidade, mas uma das estruturas através das quais uma realidade se torna perceptível. Ao tentar pensar novamente em Tupi, comecei a experimentar algo semelhante, em escala humana e simbólica, ao que a personagem Louise Banks experimenta na ficção Arrival: não a aquisição literal de uma percepção extraterrestre, mas a sensação de que aprender uma estrutura linguística profundamente diferente pode alterar as relações entre as coisas dentro da própria mente. Palavras deixam de ser simples traduções. Elas passam a carregar relações, valores, imagens do mundo e maneiras diferentes de organizar a experiência.

É nesse espaço que começa a nascer aquilo que chamo de Doutrina Tupinista Moderna.

Não afirmo que os antigos Tupis tenham deixado uma doutrina secreta esperando ser descoberta. Tampouco pretendo reproduzir artificialmente uma religião indígena desaparecida. O que proponho é algo diferente: uma construção espiritual contemporânea que nasce do encontro entre aquilo que sobreviveu da tradição Tupi, aquilo que podemos reconstruir historicamente e aquilo que nós, brasileiros modernos, somos capazes de criar a partir desse encontro. O antigo não retorna exatamente como era. Ele encontra o presente e, nesse encontro, transforma-se. O cauim contemporâneo é precisamente essa demonstração: uma bebida que nasce de uma tradição ancestral, mas possui sabor, técnica, estética e existência que nenhum antigo Tupi poderia ter conhecido.

Com o renascimento do antigo cauim e a recriação contemporânea do cauim ritualístico, surge um novo sabor, que nem os antigos nativos nem nossos ancestrais conheceram. Ele nos chega como um presente dos céus, mas precisa ser elaborado pelas mãos humanas. E talvez seja justamente essa a característica fundamental do Tupinismo Moderno: não voltar ao passado, mas permitir que o passado volte a participar da construção do futuro.

Nos últimos dias venho colocando um cuia de cauim e mingau de mandioca diante do meu mbaraka, mantido de pé entre plantas, enquanto recito a oração de Mani:

Mani omanõ yby resé, toîkó,

Oré anga rembi’urãmamo.

Mandi’oka asé reté oîopóî,

kaûĩ asé anga oîopóî.

-.-

“Mani deixou a vida terrena para tornar-se alimento espiritual do nosso povo. A mandioca sustenta o corpo, e o cauim sustenta o espírito.”

-.-

Percebo que não estou simplesmente reproduzindo uma cena antiga. Estou criando uma relação nova entre memória, natureza, objeto, alimento, linguagem e espírito. O mbaraka deixa de ser apenas uma peça histórica. A mandioca deixa de ser apenas matéria-prima. O cauim deixa de ser apenas bebida. E a língua deixa de ser apenas objeto acadêmico. Juntos, eles começam a formar um sistema de símbolos através do qual minha própria vida passa a ser interpretada.

É como se milhares de vozes ancestrais quisessem se manifestar simultaneamente. Não necessariamente como vozes literais ou sobrenaturais, mas como a acumulação de tudo aquilo que foi interrompido, esquecido, transformado ou silenciado ao longo de cinco séculos. Essas vozes trazem ansiedade, contradições e múltiplas ideias. Cabe a nós organizá-las. Na linguagem desta nova doutrina, essa organização ocorre sob a imagem do Morubixaba Açu, do Xe Ruba Nungara e de uma ordem espiritual que, mesmo depois de tantas rupturas, nunca desapareceu completamente.

Aqueles que continuaram bebendo o cauim em suas comunidades preservaram uma continuidade que não nos pertence reivindicar. Nós, descendentes tupis e brasileiros urbanos, somos outra coisa. Somos pessoas formadas pela mistura, pela cidade, pela ciência, pela tecnologia e por centenas de anos de encontros e conflitos. Nosso desafio não é fingir que somos os antigos Tupis. Nosso desafio é perguntar o que pode nascer quando a memória Tupi encontra o brasileiro contemporâneo.

Porque nossa tecnologia avançou extraordinariamente, enquanto nossa evolução moral não acompanhou necessariamente esse avanço. Produzimos máquinas capazes de alterar o planeta, sistemas capazes de processar quantidades gigantescas de informação e tecnologias capazes de transformar a própria vida; entretanto, continuamos enfrentando problemas éticos que parecem pertencer a sociedades muito mais primitivas.

Gonçalves Dias talvez nos colocasse diante de uma pergunta que hoje temos dificuldade de compreender: como um pai poderia repudiar o próprio filho simplesmente porque ele escapou da morte e do canibalismo em uma aldeia inimiga? Para nós, acostumados a um mundo em que os códigos de honra foram progressivamente enfraquecidos, essa atitude pode parecer incompreensível, cruel ou até absurda. Mas é justamente aí que reside a força da história de Juca-Pirama: havia naquele universo um código de honra tão rigoroso que a sobrevivência, quando obtida à custa daquilo que se considerava dever, podia ser vista como vergonha. Talvez nosso próprio enfraquecimento moral tenha nos tornado incapazes de compreender que, para determinadas culturas, a honra não era um discurso abstrato, mas um princípio pelo qual se podia aceitar até a própria morte.

O Tupinismo Moderno, portanto, não propõe uma regressão. Não precisamos abandonar a ciência, a medicina, a engenharia, a tecnologia ou o conforto das cidades para reencontrar uma relação mais profunda com a natureza. Ao contrário: devemos utilizar nossas conquistas para construir ambientes humanos mais integrados ao mundo natural. Nossas casas podem tornar-se mais verdes, nossas cidades mais orgânicas, nossos alimentos mais conscientes, nossa tecnologia menos destrutiva e nossas relações sociais mais harmoniosas. O objetivo não é retornar às ocas, mas fazer com que nossas próprias casas sejam capazes de incorporar aquilo que havia de essencial na relação ancestral com a natureza.

A grande tarefa é fazer nossa moral alcançar nossa ciência.

Esse talvez seja o ponto central da nova doutrina. A humanidade tornou-se capaz de fazer coisas que sua ética ainda não sabe acompanhar. O Tupinismo Moderno nasce como uma tentativa de diminuir essa distância. Não pretende destruir a modernidade, mas humanizá-la; não pretende rejeitar a ciência, mas acrescentar consciência ao conhecimento; não pretende negar a prosperidade, mas perguntar para que ela serve e como pode ser compartilhada; não pretende abandonar a natureza, mas reintegrá-la à experiência humana.

Por isso, este manifesto não é um programa partidário. Não é woke, também não é uma doutrina de esquerda ou de direita. Não é uma tentativa de vestir espiritualidade com linguagem política contemporânea. Tampouco é uma reafirmação automática de qualquer modelo social existente. O Tupinismo Moderno não precisa caber nessas categorias. Ele nasce em outro eixo: o eixo entre espírito, natureza, cultura, conhecimento e responsabilidade.

Seus fundamentos são simples, embora suas consequências possam ser profundas: honra e caráter devem ser mais fortes que discursos vazios; prosperidade compartilhada deve ser preferida à autosserviência; harmonia com a natureza deve orientar nossa relação com o planeta; conhecimento científico deve caminhar junto com consciência espiritual; e diferentes tradições religiosas e filosóficas podem conversar sem que uma precise destruir a outra.

É nesse ponto que o canibalismo precisa ser reinterpretado. Evidentemente, não se trata de recuperar literalmente uma prática que pertence a outros contextos históricos e culturais. O que podemos recuperar é a ideia de devorar como transformação. Os modernistas brasileiros, especialmente Oswald de Andrade, Mário de Andrade e Tarsila do Amaral, já haviam percebido a potência dessa imagem ao transformar a antropofagia em um princípio cultural: não rejeitar aquilo que vem de fora, nem simplesmente imitá-lo, mas devorá-lo, digeri-lo e devolvê-lo ao mundo transformado em algo nosso. A antropofagia moderna pode, portanto, ultrapassar a arte e tornar-se também uma atitude diante da própria vida.

O Tupinismo Moderno propõe uma antropofagia ainda mais ampla. Devemos devorar conhecimentos, tecnologias, religiões, culturas e ideias, mas também nossos próprios vícios, preconceitos e maus hábitos. Devemos ser capazes de reconhecer aquilo que existe de destrutivo em nós, colocá-lo diante de nós e transformá-lo em matéria para uma nova construção. Não se trata de destruir o passado, mas de digeri-lo. Não se trata de negar a modernidade, mas de incorporá-la. Assim como a mandioca é transformada pela fermentação em cauim, aquilo que devoramos deve sofrer uma transformação dentro de nós antes de retornar ao mundo. A verdadeira antropofagia tupinista não é consumir o outro: é transformar aquilo que recebemos — inclusive nossas próprias imperfeições — em algo novo, mais consciente e mais humano.

Essa espiritualidade é complementar. Ela não exige que alguém abandone sua fé. Pode conversar com o cristianismo, com o espiritismo, com tradições indígenas, com outras formas de espiritualidade e com a ciência moderna, sem transformar nenhuma delas em mera peça decorativa de um sistema fechado. O objetivo não é produzir um melting pot em que tudo seja indistinguível, mas permitir que diferentes tradições ocupem um mesmo espaço de reflexão sem perder sua identidade. A partir desse encontro pode surgir um vazio fértil: um território espiritual ainda não completamente definido, onde novas formas de pensamento podem nascer.

Talvez seja justamente isso que esteja acontecendo comigo. Ao reconstruir o cauim, comecei a reconstruir uma parte de mim. Ao reaprender uma língua, comecei a reaprender maneiras de perceber. Ao colocar uma cuia diante do mbaraka, comecei a estabelecer uma relação entre o mundo visível e aquilo que considero invisível. Não sei se devo chamar isso de religião, filosofia, cosmologia ou simplesmente uma nova maneira de organizar minha existência. Talvez ainda seja cedo para decidir.

Por enquanto, chamo de Tupinismo Moderno.


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